Noventa dias com artistas brasileiros

Noventa dias com artistas brasileiros

 

 

Um ótimo criador e diretor de programas de TV a cabo, Rafael Mellin, fez anos atrás um sensacional piloto ao canal Multishow. Seria uma série com o rapper Mr Catra, sobre os bastidores de sua vida de astro do rap com trinta e seis filhos, três esposas, muito dinheiro e sabedoria popular de um um homem de familia (assim ele se definia) autodidata. Numa época em que a corrida maluca pela audiência ainda disfarçava algum pudor anti-vulgaridade, e que a receptividade dos diretores de canais ainda não era tranquila e favorável a linguagem da favela, ie, sem a lente romantico-piedosa tipo Sebastiao Salgado, o piloto acabou reprovado. Mellin resolveu então postá-lo no Youtube, onde rapidamente teve milhões de acessos. Bordões do rapper como “Quer romance? Compre um livro” ou “Quer amor verdadeiro? Volta pra casa da mamãe” jamais saíram da lembrança de quem assistiu.

 

A parte que mais me marcou foi uma conversa do cantor com um de seus filhos, a quem levava para escola. Gabando-se do poço de sabedoria que tornou-se – na visão de si próprio -, ao mesmo tempo que insistia pra que o menino lesse mais, Catra foi surpreendido com uma pergunta marota da criança:

 

– Então por que você não lê nenhum livro?

 

– Não leio porque já sei o que está escrito. – Saiu-se o astro, sem titubear.

 

Apesar de impressionado, fiquei pensando depois em quanta coisa provavelmente não me posiciono assim. Em quantos complexos debates não tenho opinião formada, ou ao menos viés forte na percepção imediata de heróis e vilões, antes de fazer o mínimo de aprofundamento no exame dos fatos? É claro que todos nós somos assim em algo, e nenhum de nós percebe.

 

O psicólogo Daniel Kahneman ganhou um Nobel de economia com a elucidação de armadilhas assim em nossas tomadas de decisão. George Orwell escreveu que são geralmente nos temas políticos que esses nossos vícios proliferam. A cura não parece fácil. E talvez por um mecanismo de sobrevivência, a natureza nos programou pra que enxergássemos melhor as contradições dos outros, ao invés de nossas próprias.

 

Na praia onde cresci, nunca tivemos dificuldade pra enxergar contradições um do outro. Tenho um amigo que virou músico, e que me faz sempre acusações curiosas:

 

– Vocês economistas destroem o mundo! Quando olho pro sertão eu vejo gente, vejo dor, mas você vê números frios, do frio do seu ar condicionado. Numa favela eu vejo olhos, vejo anseios, mas você vê índices duvidosos numa planilha. Minha profissão é sentir o mundo pulsando, a sua é afastar-se dele e rotulá-lo. Por isso votamos diferente.

 

Mesmo zelando por sua saúde, toda vez que escuto algo assim torço pra que ele esteja drogado. Do contrário é assustador. Primeiro, eu também vejo gente no sertão, também vejo dor. Tivemos praticamente a mesma bagagem social, e crescemos no mesmo ambiente, e quando vamos a um samba na favela eu também vejo olhos, anseios, as mesmas coisas que ele vê. Também ouço a poesia e sensibilidade “numa canção de Chico”. Não entendo como ele pode acreditar que informações brutas a mais possam apagar isso. Elas apenas acrescentam.

 

Quando cruzamos juntos na viela com um beneficiário do Bolsa Familia, também estou sentindo o mundo. Também perco sono com a pobreza e me orgulho pelos princípios que criaram o programa. Não entendo como ele acha que ilustrações relevantes, tais como o fato de que um a cada quatro jovens na favela nao estuda, nao trabalha e nem procura emprego, ou o fato de que somando todas as bolsas e subsidios já são 95 milhões de brasileiros vivendo dependentes de receitas oriundas do Estado, ou que o Bolsa Familia extinguiu suas contrapartidas na obsessão pra aumentar a base de contemplados, e que o incentivo declarado do governo é até hoje pra que mais pessoas consigam entrar (ao invés de conseguir sair sozinhas) do programa… Não entendo como poderiam essas informações anular tudo que eu também vi e senti, quando na verdade elas adicionam mais clareza ao quadro.

 

Meu amigo músico diz-se politicamente antenado, mas não lê jornais pois folheando os títulos já sabe o que está escrito. Alega saber também porque está escrito, isto é, saber das tenebrosas intenções do dono do jornal, que anulariam os fatos relatados na prosa. Não leu Maquiavel na adolescência, nem Platão, pois estava na aula de violão. Pulou direto ao Noam Chomsky anos depois, sem achar que seria melhor entender melhor o jogo antes de propor reinventá-lo. Voltou só ao Marx, por indicação. Acha que justiça social se faz no varejo, quando está mais que comprovado que isso é armadilha contraprudecente,  e acha que o fato de ter juramentado ainda na infância continuar as posições do pai em nada tem a ver com irracionalidade. Não reconhece que a combinação de muito simplismo pra decidir o futuro econômico do país com pouca musculatura intelectual exercitada na teoria e na experiencia mundial anterior o deixa naturalmente tão vulnerável a papos conspiratórios na internet quanto é alguém com a vida devastada a um pastor de igreja radical. Não se importa que os países onde suas ideias foram seguidas são justamente os mais pobres e atrasados do mundo, e não acha nada em sua posicão arrogante.

 

Muitos motivos levam artistas ao constrangedor papel de embaixadores do populismo, fenômeno que não é nem só associado ao Brasil e nem só a esquerda. Por trás de todos eles nota-se sempre o traço comum da arrogância em se auto atribuir melhores intenções e, acima de tudo, maior sensibilidade social. E portanto maior domínio dos fatos, mesmo com a contradição de ignorarem a busca diária pelo conhecimento desses, ou a voz de quem depende da analise dos fatos como ganha-pão, como analistas econômicos ou cientistas políticos, por exemplo.

 

Alimenta-se assim uma visão de mundo onde problemas complexos tem soluções fáceis, bastando apenas vontade sincera de políticos bons e sensíveis (como eles), em que interesses dos pobres são sabotados pelo interesse dos ricos –como se economia fosse soma-zero onde só se fica rico empobrecendo outro -, e em que bons polítcos são aqueles que não só fazem inflamados discursos com conteúdo que ninguém discorda (“mais saúde, mais dignidade e mais acesso pros pobres”) como também defendem tudo que seja do interesse imediato da população (geralmente pago com a hipoteca do futuro) e são contra tudo que exiga esforço e sacrifício coletivo.

 

De fora, porém, o que se percebe é uma vulgarização ideológica onde esquerda, direita, capitalismo, democracia e outros conceitos passam a ter significados maleáveis e meramente intuitivos, criados em seus próprios poços de sensibilidade e boa intenção, com estoque infinito de adaptadores pra que possam ser empregados em qualquer resposta.

 

O custo disso é alto para o país, aumentando ainda mais quando empurrado as gerações futuras, que assim como nós jamais conhecerão a civilização. No entanto, críticas e reclamações não são recebidas com análise e sim repulsa, sendo tudo classificado de conspiracão, golpismo, ódio e manipulacão.

 

Assim como somente ditaduras usam o termo “República Democrática” em seus nomes oficiais, ou somente periguetes invocam seus “valores” nas entrevistas na TV, e N outros exemplos, é verdade também que são justamente os artistas que mais se prestam a massa de manobra de ideologias desonestas os que mais denunciam manipulação.

 

Por essas e outras facetas do brasileiro, achei o apolítico “90 dias com Catra” de uma sensibilidade ímpar.

 

Bruno Pesca está na estrada há muitos anos, mas não é artista brasileiro.

 

 

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