Pousaremos em breve

Pousaremos em breve

 

Voar para mim é a maneira literal de ver o mundo com abrangência, as distâncias e jornadas com clareza. Voar devia ser rotina para todo empreendedor, pois pelo menos comigo é a melhor hora para organizar mentalmente os passos – quando os pés chegarem ao chão -, mantendo sempre a perspectiva de quem tem e se sente com asas. Somos animais visuais, e não a toa a cultura de negócios ensina todo mundo a escrever seus objetivos. Visualizar nosso problema num caderno, ou num mural na parede, as vezes é meio caminho para encontrarmos a solução. Voar não é diferente. Se o empreendedor acredita que o céu é o limite, o céu é também o melhor ponto para auto-análise.

Tenho tido muitos conflitos de ideias nas manhãs de pousos em San Jose (CA), nas vindas ao Silicon Valley. Não sei mais o que minha intuição diz sobre o ambiente. Se por um lado continuo me sentindo como um aspirante a pintor chegando em Florença durante o Renascimento, por outro me sinto cada vez mais como um aspirante a roteirista de Hollywood pousando em Burbank, cidade aliás que fica atrás do morro, onde o que se filma mais são somente os pornôs.

Já estamos em 2016 e já é sabido por todo mundo que, seja com ou sem uma bolha especulativa no Valley, um excesso de dinheiro dos VCs comprou centenas de valuations irreais de start-ups nos últimos anos. A macroeconomia deslocará cedo ou tarde o dinheiro para outros ventos, a festa está acabando e isso é notícia velha. Mas não é o que me assusta. Não é o medo de não vender meu unicórnio. É o medo de ter virado os outros que venderam. O que aconteceu com quem cruzou Hollywood Hills e ficou em LA sonhando sucesso no cinema? São os garçons que atendem os turistas.

O Silicon Valley virou um grande feirão (ou ecossistema, como eles dizem) onde milhares de empreendedores do mundo inteiro apresentam suas ideias de negócio, que serão o próximo Über, para investidores de Venture Capital que serão o próximo Chris Sacca. O problema é que o feirão parece ter ficado tão competitivo que o objetivo reduziu-se a fechar negócio. Só que fechar negócio não passa na verdade de abrir um negócio, começar uma briga, não concluí-la. E aí entra a parte assustadora: todos os lados, apesar de discursarem o contrário, parecem agir hoje como se tivessem se esquecido disso.

Sabe aquela fábula dos Steves suando na garagem num esforço que virou a Apple? Tornou-se arcaica. O empreendedor do Valley hoje (ou ao menos os meus conhecidos e amigos) não gasta tempo algum sonhando e planejando com os processos que implementará em sua garagem para otimizar seu suor. Antes de vender seu peixe, toda a energia e atenção concentram-se em como vender um valuation mais alto e mesmo assim manter um equity que cubra em dólares seu custo de oportunidade, ante outra ideia de negócio que também está esboçada num papel, mas também só no papel.

A mão de obra dos empregados, todos jovens saídos de Stanford, Wharton ou quem vem depois na lista dos MBAs mais caros do país, também não usa outras métricas: aceitar ou não um emprego depende do percentual de equity e opções que receberão, sendo o único benchmark disponível a comparação com outra empresa que também nem ouviram ainda falar, porque de fato nem sequer ainda existe.

Depois de vender o peixe, fundador e empregados (todos se definem como empreendedores) passam a se concentrar na porta de saída, que geralmente é marcar o peixe como ainda maior agora, e voltar ao feirão. E o investidor que compra isso é um otário? Não, ele compra porque o mercado cresce a taxas ainda maiores de seu lado do balcão. Compra tanto porque tem boa liquidez para repassar como porque repassa de seus acertos em outro negócio o lucro para financiar mais dez negócios que provavelmente jamais terão lucro, mas possivelmente terão e financiarão mais trinta.

O ecossistema só sobrevive porque cresce, é como o peão que se parar de rodar cai no chão. E ele cresce por duas razões: porque apesar das taxas de sucesso serem muito baixas, os lucros dos vencedores são muito altos, e são reinvestidos no sistema, e; porque quem olha de fora lucros altos com saída de emergência (liquidez) fácil quer entrar, e entra trazendo mais dinheiro. O Valley está superlotado justamente porque a porta de saída parece sempre aberta. A dúvida é até quando estará mesmo aberta.

Por essas noto a semelhança com Hollywood. Analisando pelo volume de filmes escritos, ou mesmo produzidos, ou mesmo distribuídos, cinema não dá dinheiro ao investidor, nunca deu. Só os estúdios ganham, e mesmo assim menos do que parece. A Disney pode ter lucrado 1bi com o Frozen, mas o dinheiro vai embora rápido, com muita coisa pra cobrir, incluindo muitas apostas que jamais terão retorno mas por precaução precisam ser feitas (como comprar MCNs de Youtube). Em Hollywood as pessoas também falam estranho com você, ouvem mas não ouvem, te olham mas não te veem. Não importa quem você seja, só o que a outra pessoa consegue ver é o que vai tirar do encontro, com o que a mais voltará ao feirão.

Como disse antes, análises no céu são sempre auto-análises. Não me excluo dessa loucura, que hoje é replicada em todo o mundo. Minha experiência pessoal como unicorn founder nem foi aqui, mas em São Paulo, sendo todas as referências no Business Plan daqui. Tinha investidor celebridade e VC que fazia day trades, tudo como o Silicon Valley ensina. Amargamos o resultado mais provável: não deu certo.

Tudo isso é muito natural da era de destruição criativa e revolução tecnológica que vivemos. Estamos em alguma etapa de uma nova Revolução Industrial. Mas tudo isso gera também muita ansiedade, que completa um ciclo vicioso. E o empreendedor, na hora H, não consegue nem se concentrar em trabalhar de verdade. Quase como brochar de ansiedade num encontro com a supermodelo.

Millenials são inventores, não são empresários. A próxima geração continuará com lápis na orelha, mas precisará fazer o que nossa geração não faz bem, que é grudar o umbigo no balcão. E suar.

Não é uma patologia de um vale geográfico. É de um momento histórico. Do céu dá pra ver melhor.

 

Bruno Pesca comprou Economy Class e voou Business Class, mas não pagou pelo upgrade. 

 

 

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