Programação Básica

Programação Básica

 

A abertura da Caixa de Pandora que a neurociência fez com cérebro humano nas últimas décadas parece ter virado o assunto preferido entre economistas de fronteira. Isto é, aqueles economistas nunca satisfeitos com o debate mundano e que procuram sempre algo fora da caixa. Ou, nesse caso, dentro da Caixa de Pandora. Isso vem acontecendo em todos os lados: tanto no micro, que são aqueles debates sobre como arrancar mais dinheiro do consumidor, ou como fazer isso ou aquilo com mais eficiência; quanto no macro, que é por exemplo o debate que ordena as prioridades entre políticas públicas.

Sobre essas últimas, diz-se agora por exemplo que é impossível levar uma sociedade a um nível de educação satisfatório (termo que por outro lado parece cada vez mais utópico, graças a velocidade de tantas descobertas) sem a existência de saneamento básico, como água potável e esgoto tratado. Isso porque, ao contrário do que muita gente pensa, o cérebro humano não é um sistema processual que vem pronto quando nascemos, tal como o IOS num Iphone saído da loja, onde bastaria imputar os dados e acessórios. Ao contrário, nosso sistema operacional natural vai se construindo e auto-programando também após o nascimento, e ao longo da vida, junto com o download dos dados. Sobretudo na primeira infância.

Para se ter uma ideia, entre zero e três anos de idade, uma criança gasta 80% de sua energia metabólica na construção bioquímica do cérebro. Logo, uma diarreia severa nessa idade, que obrigue o metabolismo da criança a gastar toda a energia combatendo outra coisa, pode ser o responsável por um buraco qualquer no ordenamento dos códigos básicos do seu sistema operacional. As vezes, é uma falha tão sutil que só se revelará anos depois, em determinado padrão de comando cerebral. Mas é algo irreversível. Nesse sentido, crianças que crescem sem saneamento básico seriam como computadores que baixam seus sistemas operacionais de uma internet falhando, com o agravante que o download não é interrompido quando a rede cai, já que na vida real o tempo não para. Fica-se com um buraco na programação.

O resultado torna-se uma verdadeira loteria social, e a descoberta ajuda tanto a assustar o economista brasileiro (uns 50% dos brasileiros entre 0 e 14 não tem saneamento adequado) quanto a explicar o atraso dos povos africanos. Mas por outro lado, entendo eu, isso ajuda também a validar aquela velha sabedoria popular de que um pai tem sim que fazer o que pode, mas não pode se culpar caso algo dê muito errado mesmo assim. Se uma diarreia pode em tese sair de uma bactéria acidentalmente perdida em uma mamadeira de luxo, também fica provado que a sucessão de eventos que constroem os padrões das nossas sinapses (a linha de transmissão elétrica entre alguns dos nossos bilhões de neurônios, pra cada comando cerebral) saiu de uma matriz infinita de possibilidades, as quais jamais poderíamos ter tido controle.

Pela ótica do surfista, o assunto é ainda mais interessante, pois ajuda a desconstruir o talento. Por muito tempo perguntou-se o que é talento, e cada uma das ciências ensaiou sua resposta com seu prisma próprio. Ao que tudo indica agora, talento não passa de uma proficiência acima do comum em determinada atividade, que se desenvolveu pelo acaso da construção de um padrão de sinapses no sistema operacional da pessoa, que foi por alguma razão construído para otimizar aquele determinado processo e desenvolvê-lo de forma mais natural, inconscientemente (naturalmente).

Como a proficiência de todo computador para determinado uso depende se seu sistema básico foi escrito com aquele intuito, fica fácil entender o peso da infância na construção de um talento, mesmo que esse só se revele muito depois. Mas falta ainda explicarem se o tal acaso foi tão ao acaso assim. Qual seria o peso da genética nesse acaso, ou da vontade sincera e extrema do serumaninho em aprender tal coisa – fazendo com que o cérebro entendesse aquilo como questão de sobrevivência e escrevesse tais códigos básicos com prioridade máxima por isso -, ainda não se sabe. Ou, se já se sabe, ainda não li essa parte.

Olhando pela estatística, tanto a escassez de gênios que vemos em cada esporte e arte, quanto a análise combinatória infinita de possibilidades de fluxo elétrico entre bilhões de neurônios e células para criar um mero padrão de reflexos cognitivos e memória muscular, nos dizem a mesma coisa: faz sentido esses gênios terem salários equivalentes a ganhar na loteria, pois foi exatamente o que eles fizeram, mesmo com todo o esforço sem o qual não seriam nada.

Não sei bem por quê o assunto me veio a cabeça. Mas faz um domingo feio, com muito vento lá fora, e as ondas não andam boas. É o tipo do dia em que acordo sem a menor ideia do que fazer ou falar. Mas sei que, na hora de escrever a coluna, o acaso vai me proteger.
Bruno Pesca anda distraído com ideias sobre a neurociência.

2 respostas para “Programação Básica”

  1. Bacana! Antes de tudo, vc ainda pode olhar pela janela e ver se as ondas estão quebrando…aqui em Sampa tenho que esperar o finds e torcer qdo chegar no north shore paulista ter onda!!! Cara, instigante seu raciocínio, entretanto, ainda fico com as palavras de Tiger Woods: “Quanto mais eu treino, mais sorte eu tenho”

    1. Concordo com o Tiger Woods. Não vejo como contradição, ao contrário, é geralmente a cabeça que funciona assim (por alguma razão) que faz o campeão.

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