Sabotagem Evitável

Sabotagem Evitável

O grande deleite do economista que analisa a sociedade estadunidense é a disponibilidade – ao contrário do que acontece no Brasil e maioria dos países – de dados e pesquisas sobre tudo.

Um estudo muito impressionante é o que estima em 250 mil casos por ano o número de mortos em hospitais do país por “preventable deaths” (mortes evitáveis). Não se trata de erros médicos ou aqueles casos em que podemos nomear culpados, mas sim de mortes que acontecem por bobeiras processuais, como um médico que não pôs no relatório ao médico seguinte determinada preocupação ou suspeita, situações que seriam evitadas por determinado procedimento, etc. São os casos onde médico, enfermeiro, ou mesmo um parente da vítima, fizeram sua parte, ou como se diz no Brasil, fizeram o que deu, mas só isso. Alguém não fez o melhor que pode, como literalmente se diz na cultura do país, o “I’ll do my best”.

A culpa não recai sobre ninguém, mas sobre as interseções que ninguém abraçou entre os envolvidos. Um pouco do “deixa que eu deixo”do vôlei de praia, quando a bola vai no meio. O responsável por essa zona cinzenta torna-se obviamente a fatalidade.

Falando agora como empreendedor brasileiro (os perdidos da minha geração se dão múltiplos álibis), duas ideias adicionais me assustaram muito após ler sobre esse terrível estudo, ou melhor, ótimo estudo de terrível constatação. A primeira é imaginar que número de mesmas mortes encontraríamos no Brasil, onde a competência profissional do povo tem o inimigo cultural citado acima. Recapitulando, você pede como cliente alguma coisa a um funcionário de alguma empresa nos EUA, e por mais preguiçoso que ele seja, a resposta é “farei meu melhor”. No Brasil ele diz que vai “ver o que dá pra fazer”. Não é uma diferença meramente linguística, é de atitude. É antropológica.

Fazer meu melhor significa que, seja qual o for o cenário, darei tudo de mim, ignorando e atropelando variáveis que não controlo. Ver o que dá, ao contrário, transfere imediatamente toda responsabilidade sobre o resultado aos fatores que não controlo, ou seja, me isenta e absolve – de antemão – das eventuais falhas. A 1ª resposta incentiva o próprio preguiçoso que a disse a se mexer. A 2ª protege sua preguiça, e ainda incentiva o pró-ativo a ser mais preguiçoso. É muito pior.

A segunda ideia assustadora é que por mais radical que seja o exemplo desse estudo, onde o resultado da falta de empenho máximo de um time é a morte de alguém, não existe razão para supormos que em outras indústrias (ou outros escritórios que não são hospitais) os resultados não são ao menos os mesmos, senão piores. Mal ou bem, quem trabalha em hospital atendeu o chamado de uma vocação idealista, tem talvez por isso preocupação acima da média com o impacto de seu trabalho, além de ter clara ciência e visão sobre as terríveis consequências de um vacilo nele.

Já no mundo mais social e complexo, como num banco, numa agência de publicidade, numa fabricante de bebidas ou camisas, ou mesmo secretaria de governo, as pessoas já perderam de vista as consequências de suas ações e omissões nos detalhes. Por que então seriam, em média, mais comprometidas com eficácia de tudo e resultado da obra? Provavelmente são menos. O resultado provavelmente é o de ineficiências e perdas que se estendem a circumstâmcias menos tangíveis que o assalto de um ladrão que entrou aproveitando-se da distração do porteiro no Facebook,  ou de uma loja que perdeu uma venda pela mesma razão.

Até o cálculo do “PIB potencial” omite essas coisas. É realmente então um pedaço de nossos negócios – e de nosso país – morto por nós mesmos. E como todo suicídio, é uma morte evitável.

 

bobeira-da-zaga
Lance em que cada um dos zagueiros brasileiros fez o que deu  foi somente o 1º gol da goleada alemã.

 

Bruno Pesca estava com preguiça de escrever essa semana, mas fez o que deu para entreter o leitor.

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