O bagulho das privatizações

O bagulho das privatizações

 

A campanha popular pela legalização da maconha ainda esbarra no Brasil num limite de escala. Os argumentos são sólidos, porém tem pouca audiência com a maioria conservadora, simplesmente porque seus notórios interlocutores, os maconheiros, recebem pouca credibilidade quando a pauta é preocupação social.

 

Afinal, seja isso retrógrado ou não, a maconha ainda é ilegal, e eles passaram todos esses anos financiando tráfico, corrupção e armas, avaliando portanto que seu direito de consumir o que quiserem vem acima de qualquer custo ao próximo, inclusive custo de vida (como sempre foi infelizmente o caso nas metrópoles brasileiras).

 

Essa é aliás, diga-se de passagem, uma orientação ideológica fundamentalmente liberal, do ponto de vista da teoria econômica, embora todo mundo no Brasil conheça algum jovem que tanto adora comprar um baseado quanto acha que neoliberal é xingamento. Mas isso não vem ao caso.

 

O que vem ao caso é que a letra é boa, mas o som não entra, pois o verdadeiro viciado é o público careta.

 

Um dos assuntos mais próximos de atingir consenso entre economistas de diferentes visões de mundo é o da necessidade de legalizacao da maconha. Com o resto do público é diferente. Meu velho pai é contra a legalização de “qualquer coisa ilegal”, invocando entre outras coisas um argumento econômico: “Se tirarmos o ganha pão de delinquentes armados, eles não terão opção senão migrar pra outros crimes, vir atrás da gente.”- diz.

 

Ele tem razão na teoria, mas não no emprego.

 

É verdade que legalizar uma droga traria (em tese) aumento – e não diminuição – do custo social do (ex)tráfico no curto prazo, com aumento da criminalidade. Mas no longo prazo o efeito é – em tese, novamente – o oposto, e muito maior, porque elimina das próximas gerações a mera opção de virar traficante. E ser assaltante tem menos apelo, já que nessa atividade as margens pro auto-engano são menores. É muito difícil contar a si mesmo alguma versão dos fatos em que assaltar ou sequestrar alguém por dinheiro não é fazer mal ao mundo. No caso do tráfico é bem mais fácil, pois muita gente quer consumir a droga.

 

Mesmo sendo prática exercida por todos os governos recentes, e por isso uma retórica já meio obsoleta no Fla x Flu político, o sentimento popular sobre as privatizações de empresas públicas obedece até hoje lógica análoga a do meu velho pai com as drogas. Enfatiza-se no inconsciente popular a imagem imediata, o incômodo de que, na hora da privatização, alguém ou alguns ganharam vantagens indevidas, e por isso o processo em si “saqueou o povo”.

 

Pouco importam aí os avanços dos setores desestatizados.

 

Pouco importa que em alguns casos o contribuinte estaria sendo saqueado continuamente até hoje (como ocorria continuamente antes), com prejuízos financeiros maiores, caso fosse ainda o proprietário cego dessas empresas, o dono que é controlador mas não lê os balanços nem vai as reuniões de acionistas, delegando uma procuração logo aos políticos de plantão.

 

Pouco importa que, por razões óbvias, nunca existiu ou existirá em nenhum lugar do planeta nenhum processo de privatizaçao de algo público sem corrupção, já que desestatizar é, em essência, uma transação onde o vendedor é um grupo político, o preço é arbitrário e o ativo é quente e sem paralelo no mercado.

 

O fiasco do Estado como empresário (diferente de acionista) é apartidário, e corrói também o rendimento da sua função original de Estado na entrega de bens públicos como saúde e segurança. Basta olhar pro efeito do Petrolão no Rio de Janeiro, que perdeu receita até pra manter policiamento mínimo na pista, e emergências de hospitais operantes.

 

Resta as novas gerações que crescem sem cair no conto da demonização da maconha (e da eficácia do combate as drogas) enterrar de vez também o mito populista com a palavra privatização, e lembrá-las  – seja de mineradoras ou aeroportos – procurando análises mais racionais, e caso a caso, dos custos benefícios pro cidadão. Algumas privatizações no Brasil parecem ter sido bem feitas, outras nem tanto. Em todos os casos, o longo prazo é sempre mais importante que o curto.

 

O fato de algo ser liberal não é em si ruim. Nem bom. É só uma referência pra mapear predileções, não resultados. Menos ainda limitações das pessoas. Pense como em ser friorento ou calorento. Imagine se não fosse tirar meu casaco em 40º de sol só porque sou friorento. Uma pessoa friorenta as vezes sente calor. Não é hipocrisia.

 

Embora cada vez mais longe de nossos tanques de combustíveis, o petróleo continua nosso, dizem. Assim como a trilionária dívida pública e os enormes prejuízos sociais pela inaptidão do Estado, que há muito tempo corrompeu oficialmente a distribuição das tarefas de governo ao interesse dos grupos políticos. Esses sempre preferirão se apropriar do pedaço que tenha mais dinheiro e menos restrições legais pras decisões. Como diretorias de estatais.

 

Falar em privatizar a Petrobrás antes sequer de fazermos a reforma política, que deveria ser o foco, talvez não seja o mais sensato. Mesmo assim o assunto pode crescer nos próximos anos. Então é melhor que apreciemos o tema sem tabus, e com avaliações menos apaixonadas do passado. Pois numa era em que decisões políticas erradas já nos causam tanta angústia, estaremos propensos a mais erros de posicionamento.

 

 

privatizacao
Talvez tenhamos que nos desfazer de ativos bons e estratégicos, já que políticos imaturos não lhes poupam lançar mão.

 

Bruno Pesca não usa drogas mas ainda tem ações da Petrobras.

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