As Almas das Galáxias

As Almas das Galáxias

(Texto escrito em 2005)

 

Ênio, nascido em 239 a.C., é considerado o pai da literatura romana. Conta Perini que o poeta latino falava três línguas: grego, predominante no sul da Itália, onde vivia; latim, no qual escrevia; e osco, primo do latim e sua língua materna. Por essa razão, costumava dizer que tinha três almas. Almas, aliás, eram figuras recorrentes em poesias e tragédias escritas por ele, dado o papel que ocupavam na formação moral da época. A espiritualidade versus a matéria, questão formalizada pelo Dualismo de Descartes muitos e muitos séculos depois, remonta embates filosóficos bem anteriores a Copérnico e Galileu, ou ao próprio Cristo. O pensamento científico é tão velho como a fé, e vale ilustrar que Pitágoras viveu três séculos antes de Ênio.

 

A ciência anda devagar, e enquanto ela não chega o jeito é agarrar-se a crenças, pseudociência, convicções “pessoais”. Sempre foi. Mas aos poucos se explica o inexplicável, e aos poucos se conhece algumas respostas da ciência a milênios de dúvidas e inquietude humana. Confesso, entretanto, que minha inquietude pessoal aumentou ao descobrir o estágio no qual se encontra o estudo da física quântica, que brevemente apresentarão como ciência humana. Já se sabe, por exemplo, que o cérebro humano processa 400 milhões de bits de informação externa por segundo, mas só tomamos consciência, de fato, de 2 mil desses bits. Isso significa que a realidade está em nossa frente a toda hora, mas não nos damos conta. É grave.

 

A capacidade de se perceber a realidade além das limitações criadas por nossa própria mente recebeu um tratamento genial no cinema. Antes de citá-lo, contudo, é preciso considerar mais uma de suas premissas, também corroborada pela mecânica quântica: recentemente (há uns dez anos atrás), cientistas descobriram que um elétron se comporta de maneira diferente pelo simples fato de estar ou não sendo observado. As implicações disso em nossas vidinhas são fortíssimas, pois significa que o mundo é todo um organismo único interligado, e, portanto, uma pessoa influencia o destino da outra, por mais insignificante que essa pessoa possa ser acusada de ser. Pois bem, esses conceitos todos já haviam sido-me apresentados por George Lucas, quando eu ainda criança. Em forma de fábula, Lucas veio com uma história supostamente inocente, passada “a long time ago, in a galaxy far away…”.

 

Nessa fábula, há a Força, que de acordo com a filosofia Jedi é o campo de energia que une, equilibra e harmoniza tudo no universo, seja matéria ou seres vivos. A Força nos cerca e nos penetra, mantendo a galáxia coesa. Seria como um instrumento metafísico da natureza, ou, para quem insiste, uma entidade (deus). Pelos caminhos da Força guiam-se a natureza, toda e qualquer matéria, o destino, a sociedade. O mais legal da trama – que discute política, valores morais, filosofia, tecnologia e guerras em um drama só – é a relação da Força com o desenrolar do enredo. Star Wars é tudo menos inocente, e refaz idéias familiares a filosofias e religiões existentes há milênios, como por exemplo, o Taoísmo chinês.

 

Sem me atrever a falar sobre Taoísmo, posso dizer que o que mais gosto da cultura chinesa são os ideogramas. Lembro que em minha primeira aula de mandarim a gentil professora fez questão de ensinar-me logo a palavra Brasil. Os chineses chamam o Brasil de ba-xi, tradução meramente fonética de nosso nome para sílabas que eles possuem e conseguem pronunciar. Mas para escrever ba-xi usam-se dois ideogramas que não são sílabas: o primeiro significa terra de esperança e prosperidade; e o segundo oeste. É dessa maneira simpática que eles vêem nosso país, e dessa maneira escrevem e codificam a vida. Lugares, pessoas, ações, objetos… Tudo é representado nos ideogramas chineses por uma idéia.

 

Se assim é, evidentemente existe influência das interpretações nas simples designações das coisas, e não existe simples designação que não carregue interpretação, como bem lembram os cientistas. Em outras palavras, a concepção de mundo que os chineses desenvolvem é uma função da idéia de mundo implícita nos ideogramas. Se você não é chinês, então, jamais enxergará o Brasil, ou um sapato, ou a vida, da forma que um chinês enxerga. Esse princípio vale para quaisquer línguas comparadas, e certamente isso inclui grego, latim e osco. Mas na verdade (sugeriria ao poeta), não limita-se a línguas. A idéia vale para qualquer forma de interação entre a mente e o mundo exterior. Quem garante que duas pessoas de visão normal vêem exatamente a mesma cor ao olharem para o mesmo laranja? O que se sabe é apenas que eles vêem exatamente aquilo que ambos aprenderam

como sendo laranja.

 

Assim como cada um de nós possui uma impressão digital única, ocupa um único lugar no espaço em determinado tempo e possui um único histórico de vida, é natural supor que as percepções para as coisas sejam únicas. Prova disso é o surfe. Tal como impressões digitais, não existem duas ondas exatamente iguais. E ainda, quando surfistas observam a mesma onda fazem leituras diferentes sobre como gostariam de surfá-la. Tanto é assim que dois surfistas considerados de mesmo nível fazem linhas totalmente distintas em ondas perfeitas e semelhantes. O mesmo vale para a vida, claro, pois se a ciência diz que a realidade acontece em nossa frente enquanto absorvemos apenas a fração conveniente, é razoável dizer que cada um vive seu mundinho. E matematicamente está provado (2mil / 4 milhões) que ninguém sabe nada sobre realidade.

 

A virtude dos guerreiros Jedi estava em superar as limitações impostas por seus sentidos e emoções para enxergarem melhor a verdade. Absorviam de maneira serena mais de 2 mil bits de lucidez, e com o melhor dos espíritos moviam elétrons pelo bem da galáxia. O instrumento usado para isso era a Força, ou, em mecânica quântica, energia. Energia são ondas, conceito o qual conheço desde garoto. Sinceramente então, parece-me um exercício acessível.

 

Como nosso cotidiano trivial depende de energia e interação de elétrons – já que somos partes de um sistema único -, as relações sociais podem ser traduzidas em modelos matemáticos. Daí a física torna-se ciência humana e a humana exata. O fato é que a mensagem da ciência moderna é incrivelmente a mesma de filosofias religiosas milenares, ou da galáxia antiga e distante: nosso mundo é o que fazemos dele, pois o que chamamos de nosso mundo é um mero recorte tendencioso de interpretações do real, que sabe-se lá se existe…

 

O idioma obviamente é uma das tesouras, e ao dominarmos maneiras diferentes de recortar nossa realidade talvez possamos – além de nos colocar em diferentes situações – nos atribuir diferentes estados de espírito.

 

Provavelmente era isso que o poeta Ênio tentava dizer ao afirmar que tinha três almas.

 

 

 

Recorte
Palavras são tesouras com as quais forjamos, tendenciosamente, nossa tal realidade.

 

 

[Baseado em impressões sobre: o livro “A língua do Brasil amanhã e outros mistérios” (PERINI, Mario A. São Paulo. Parábola. 2004); o filme “Quem somos nós?” (“What the bleep do we know?” -2005); a série de cinema “Star Wars” (Lucas &Spielberg), e; conversas na praia do Leblon.]

Bruno Pesca

 

 

 

 

 

2 respostas para “As Almas das Galáxias”

  1. Ae Bruno! vi seu texto no Brazil Journal e entrei no seu blog, muito massa! keep going bro.

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