Dedos ocupados são dedos felizes

Dedos ocupados são dedos felizes

 

Ano passado, em meio a falta do que fazer no tempo livre, escrevi um roteiro de longa-metragem, uma comédia romântica pro cinema. Era a história de um sujeito muito bem sucedido, cujo trabalho era comprar e reestruturar pequenas empresas com enorme potencial de mercado, mas afundadas em prejuízos por falta de gestão. Seria um desses caras formados num MBA do Ivy League quinze anos atrás, que rezam pela mesma cartilha que o JP Lemann importou ao Brasil – e que os gringos chamam de “one-trick poney”- que prega mais ou menos o seguinte: não importa em que ramo a empresa atue, mas qualquer executivo bom em cortar custos e estimular os empregados que ficaram pode liderá-la ao sucesso.

 

Minha trama, entretanto, passava-se na esfera pessoal do sujeito. Acostumado a ganhar a vida destruindo e descartando tudo o que encontra, pra então reconstruir em cima, meu herói não percebia que sabotava viciosamente todas as chances de amor – e socialização – que lhe cruzavam, e por isso angustiava-se mais e mais na solidão. Inicialmente, batizei a história de “Creative Destruction”, mas depois, numa revisão, achei o nome óbvio demais pra um economista Schumpeteriano, e decidi renomeá-lo “The Restarter“. Pois é, escrevi tudo em inglês, pra na pior das hipóteses tentar enriquecer meu vocabulário.

 

Não faço ideia se escrevi algo utilizável a um diretor de cinema, ou se a novela não passava de bela porcaria (mais provável). Enviei mesmo assim uma cópia a Letty Aronson, produtora e irmã do Woody Allen, o autor da frase que me inspirou a escrever um roteiro nas horas vagas (e que dá título a este post). Allen faz um filme sensacional por ano, todo ano, ha mais tempo do que eu nasci, e assim talvez estivesse sempre aberto a ouvir ideias, imaginei.

 

Recebi meses depois, na manhã do meu aniversário, um email de uma italiana de nome Gine, que já na primeira linha se identificou como assistente do homem. Mas a alegria durou somente até a segunda linha. Gentilmente, Gine explicou que seu chefe não leria, ouviria ou se interessaria por nada que eu possa ter pensado, pois é contratualmente restringido a trabalhar assim (provavelmente pra evitar acusações de plágio e oportunismos do tipo).

 

Woody Allen acabou estrelando mesmo assim – e a revelia – meu próprio primeiro filme (ainda que de surfe), no qual eu mesmo surfei, dirigi e editei (no i-Movie). Espero que a Gine não me odeie por isso.

 

 

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