Minha segurança por aí afora. E por aí afora.

Minha segurança por aí afora. E por aí afora.

(Texto escrito pra Revista Trip em 2013)

A sensação de embarcar numa surf trip para Israel é estranha. Como ávido aprendiz de assuntos geopolíticos, jamais pensei que meu primeiro vôo a Tel Aviv fosse por razão de um swell. Mas assim foi, e após cinco meses monitorando o flat no Mediterrâneo, enfim uma boa previsão. Mesmo tendo percorrido meio mundo árabe, estava naquele mês com um passaporte novo em folhas, eliminando qualquer indício de eventual influência moura em minha missão. Por razões conhecidas, esse requisito é importante para admissão no pequeno e controverso estado judeu.

Surfamos por toda a costa israelense, até quase o Líbano, e por toda parte sentimos apenas cordialidade. Preocupação sobre segurança vimos no aeroporto, com procedimentos bem constrangedores, aliás. Meu amigo Rico Faissol passou por um aperto. Seu sobrenome de origem árabe demandou profundas explicacões. Faissol dirige o programa “A Vida Que Eu Queria”, do Canal OFF, no qual o surfista Marcelo Trekinho e eu viajamos o mundo atrás de boas ondas. Não éramos exatamente o tipo de visitantes esperados por ali.

Viajar atrás de ondas é fundamentalmente um prazer. Acredito que paramos no Oriente Médio pois dizem que o Homem é escravo de seus hábitos, e há quatro anos tenho o hábito de não desgrudar os olhos daquela região. Isso por conta de outro programa de tv, o “Não Conta Lá Em Casa” do Multishow, com outros bons amigos. Neste projeto foram quatro anos circulando por países conturbados, com o intuito de superar a desinformação sobre suas realidades. Nele passamos alguns bocados, sem dúvida. E após o hotel que ficamos em Bagdá ter explodido meses após nossa visita, ficarmos atolados no deserto da Somália ou perdidos na estrada no interior do Afeganistão, certo dia decidimos que era hora de nos prepararmos melhor.

Voamos então até Ravenna, na Itália, onde o guru da segurança Jim Wagner ministraria mais um de seus cursos especias. Jim é um americano obcecado com segurança pessoal, mas o que o diferencia dos outros estadunidenses é a autoridade formal de causa. Ex carcereiro penitenciario na California, ex membro da SWAT, ex agente federal a paisana em aviões comercias, ex segurança de grandes celebridades e ex consultor de Hollywood para o assunto seguranca. Bem, ao menos tudo isso é o que consta em seu website. O que realmente sabíamos era que o Morgan Spurlock treinou com ele no início de seu ótimo filme “Where in the World is Osama Bin Laden?”

Spurlock conseguiu imagens engraçadas no treino com Wagner, o que obviamente nos interessava. Mas o aprendizado sobre como proceder em situações extremas de segurança foi real. Aprendemos lições que você espera nunca precisar usar, como saber que uma luta pra valer com facas dura no máximo seis segundos, que é melhor correr em diagonal e zigue-zague quando se foge de um atirador num massacre, que quando se luta por vida ou morte e não por esporte o melhor é ir sempre nos olhos e no joelho do criminoso.

Claro que o treinamento falhava em reproduzir a adrenalina de situações extremas, mas qualquer treinamento é assim. Foram cinco dias de exaustão dentro de uma academia de polícia, ao fim dos quais me convenci de duas coisas: a primeira é que a fama de metrosexuais dos italianos não é de todo falsa, afinal até no vestiário masculino dos policiais encontramos vários secadores de cabelo; a segunda é que havíamos diminuido nossas chances de morrer durante a próxima visita a um país em guerra. Ou ao menos em tese. E como diz uma famosa expressão do mundo do surfe, o que importa é o feeling.

Quando se pensa em seguranca mundial, o feeling dificilmente é de euforia. Alguns analistas vislumbram uma terceira guerra mundial no futuro caso a União Europeia morra hoje. Possibilidade real na qual não aposto, talvez por um viés sempre otimista que certamente tem mais a ver com meu esporte do que com tudo que vi no planeta. Sei porém que muitos pensadores ilustres gastaram muitas linhas dissertando sobre as razões do mundo jamais poder tornar-se um lugar seguro, e leio com interesse.

Na década de 1930 e contexto de pós Primeira Guerra Mundial, a Liga das Nações (hoje a ONU) propôs aos maiores intelectuais e cientistas da época um desafio até então inédito. Eles deveriam escrever uns aos outros de forma a cruzar conhecimento e discutir temas e soluções para a humanidade. Einstein escolheu Freud. Einstein, um entusiasta assumido do futuro, perguntou se pelos caminhos do conhecimento psicanalítico haveria indícios para supormos que um dia um mundo sem guerras seria possível. Freud foi categórico e respondeu que não, num belo resumo sobre a psique humana versus a organização das sociedades sob essa ótica. Einstein, desapontado insistiu: “Mas nem mesmo se alcançarmos abundância de recursos e igualdade plena de direitos e oportunidades entre todos os homens?”. Freud devolveu: “Acho que não. Nem mesmo assim seria possível’.

Não há necessidade de questionar Freud. O que todos nós sabemos, com segurança, é que estar vivo nada tem a ver com estar seguro.

Bruno Pesca

 

Albert & Sigmund
Albert e Sigmund trocaram cartas e aflições, a pedido das nações.

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