A Cidade Não Mora Mais Em Mim

A Cidade Não Mora Mais Em Mim

 

Se é verdade que não se julga um livro pelo título, a regra não se aplica ao fantástico “Where Good Ideas Come From: The Natural History of Innovation”, de Steven Johnson. Comprei-o usado e surrado, por nove pratas num brechó, num momento de enorme angústia pela falta de uma boa ideia para empreender. O título me pegou, e a leitura atendeu a expectativa, que não era exatamente entregar-me uma ideia que resolvesse minha vida, mas entender por que andava tão carente de ideias. Como poderia me inserir num ambiente que maximizasse a chance de tê-las? De certa forma, tal resposta em si tende a resolver nossas vidas profissionais, e assim, de certa forma, o livro também entrega a “ideia mágica”, ainda que o leitor não saiba como usá-la.

Johnson faz exatamente o que sugere no título: discorre sobre a história natural da inovação, contextualizando ideias como meras ferramentas de sobrevivência de animais que somos, e colocando nossa sociedade na perspectiva de um tecido orgânico. A narrativa começa com Darwin e suas fascinadas pesquisas sobre recifes de corais. Há milhões de vezes mais formas de vida (criatividade biológica) em poucos metros cúbicos de recifes de coral que apanham das ondas do que em vastas milhas náuticas de oceanos. Dificuldade de sobrevivência gera cooperação, que gera aglomeração. Aglomeração gera competição, que gera criatividade. Criatividade gera mais criatividade. As metrópoles urbanas seriam nossa versão social de um recife, e segundo estudo citado no livro, o jovem de uma metrópole de cinco milhões de habitantes é em média três vezes mais criativo que seu par de uma cidade de cem mil habitantes.

Um exemplo curioso de gatilho biológico para inovação nas cidades foi a adoção do café como bebida. Não é coincidência, segundo o livro, que a adoção do hábito e o Iluminismo decolaram juntos, no século 18. Antes do café, bebia-se somente cerveja nas cidades. A água era poluída demais, e embebedar-se a saída. A revolução industrial que se seguiu é, nesse sentido, mera consequência de uma sociedade que de repente passou de bêbada para hiper-atenta. Aliás, no livro “London Coffee Houses”, Bryant Lillywhite foi mais longe e sublinhou o efeito das coffeehouses em si como  laboratórios de trocas de ideias e informações. Numa era em que não havia internet, TV ou rádio, a ideia de “jornalismo” ainda engatinhava e o correio era precário, as coffeehouses tornaram-se os centros de comunicação das pessoas, e foros para grandes discussões.

Moral da história: pessoas evoluem graças a outras pessoas, criatividade brota quando essas se juntam, e evolução se faz com criatividade. Isso seria a conclusão definitiva para a dúvida sobre viver ou não em metrópoles, não fossem dois poréns. O primeiro é que embora felicidade seja função da evolução, não se percebe mais nas cidades evolução de quê. Para muita gente, a sensação nelas é que se “tudo isso” é evolução, é para o lado errado. E nem é necessário incursão nesta reflexão, graças ao segundo porém: a conectividade das pessoas e informações (e logo o senso de pertencimento a tribos e debates) hoje é de nível tão global e avassalador que pouco faz diferença viver nas metrópoles. Nosso recife de coral não é mais a cidade e sim o online. E por conta da imersão online, a qualidade intelectual das velhas trocas nas cidades caiu muito, já que pessoas só estão presentes fisicamente. Ao mesmo tempo, a cidade obviamente falha no preenchimento dos outros anseios que voltaram a ser importantes recentemente, dada toda essa confusão: natureza, segurança e saúde física são alguns deles.

Sujeitos espertos hoje vivem no égide das discussões humanas enquanto circulam descalços na grama de suas casas de praia. Vivem no cume das tomadas de grandes decisões num escritório em qualquer ponto do planeta, não necessariamente metropolitano. Se antes gestores de Hedge Funds moravam em Connecticut e trabalhavam em Manhattan, depois levaram até os escritórios para Connecticut (que sentido faz ir a Manhattan se nenhum deles mora lá?), e agora os levam a qualquer lugar do mundo. Afinal, se todos os gestores forem também surfistas – como aliás já é o caso em vários times – por que mesmo precisam morar em Connecticut e não em Honolulu?

Precisamos de criatividade mais do que nunca. O advento tecnológico e suas derivadas, como a inteligência artificial, já avisaram que levarão cada vez mais empregos embora. A atividade humana tende a economia de serviços, e serviços necessariamente criativos, por menores que sejam. Mas a própria estrutura da rede que empurra tal evolução tecnológica é cada vez mais descentralizada, com seus códigos abertos, plataformas colaborativas e colaborações por acesso remoto. Nem o Silicon Valley fica mais no Silicon Valley. Ele agora fica em Vancouver, Denver, no interior da Russia ou da Alemanha, ou em qualquer ponto do planeta.

Se você é mesmo criador das suas próprias oportunidades, nunca foi tão fácil posicionar sua cadeira onde quiser. Até porque vôos comerciais continuarão baratos, e o dinheiro – que agora não só se move por via online mas é emitido por redes descentralizadas – continuará se concentrando na mão dos criativos.

O importante ao sucesso material sempre foi e será a conexão intelectual a outros humanos, buscando sempre melhor conteúdo das trocas. Mas se a tecelagem tornou-se digital, perde-se o sentido de uma custosa aglomeração física na qual as células não mais se complementam.

Já para o sucesso espiritual, dizem os gurus místicos e os cientistas, o importante também é a conexão com humanos, ou melhor, com aqueles que nos importam. E parece inegável que, desde que todos estejam intelectualmente alimentados por suas realizações práticas, a qualidade do tempo gasto com eles tende a ser muito melhor na grama da casa de campo do que no escuro apartamento na cada vez mais solitária metrópole.

 

Bruno Pesca não almoça mais na cidade, mas ainda a envia notas fiscais.

2 respostas para “A Cidade Não Mora Mais Em Mim”

  1. Gosto muito de como você escreve, é de uma clareza impressionante. Não pare!

    1. Obrigado, Sabrina! Só vi agora.

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