Nós Somos Cristos Redentores

Nós Somos Cristos Redentores

 

 

É de conhecimento de todos os brasileiros a personalidade um tanto pretensiosa de nós cariocas. Das origens no conchavo a nobreza e controle do país na era colonial, uma certa noção de que somos especiais ficou até hoje, e junto com ela certa sobrevalorização de nossas ideias de mundo. Nenhum exemplo melhor que o nome de nosso grande jornal. Ao invés de Folha do Rio, Diário Carioca, Correio da Guanabara ou qualquer nome análogo aos jornais de todas as outras cidades do mundo, nosso jornal é, como sabemos, bem mais ambicioso em seu escopo, e chama-se “O Globo”. O carioca precisa sentir-se a par de tudo, explicar tudo, parecer por dentro de tudo. Segundo um sociólogo francês, isso não passaria de complexo de uma elite social por não ter qualquer relevância nos temas da história mundial. Eu não sei o que é.

Sei de somente mais um caso de publicação regional, na história recente, cujo nome era tão ou mais megalomaníaco que O Globo. E embora não fosse um jornal, foi uma revista cujos valores pretensiosos não só marcaram uma geração de leitores, como esses também de fato transformaram o mundo inteiro, muito em parte movido por tais valores.

Trata-se do “Whole Earth Catalog” (WEC), o famoso catálogo em publicações períodicas criado em Menlo Park no fim da década de 1960 por Stuart Brand, rapaz biólogo formado em Stanford que a partir disso tornaria-se lenda.  Qualquer paralelo com a cultura carioca fica apenas na retórica, pois a filosofia era o extremo oposto. Em seus catálogos, onde em subtítulo lia-se sempre “acesso a ferramentas”, Brand promoveu entre inovadores do Silicon Valley a (hoje popular) ética de trabalho tipo Do-It-Yourself (DIY), ou “faça você mesmo”, que embora não fosse inédita passou a inspirar a cultura do lugar que viria ser a Florença do capitalismo pré-século 21.

O WEC falava de ideias sociais liberais, tecnologia e ecologia integrados em uma arrojada visão holística, acima de tudo orientada pelo DIY. Brand acreditava na promoção da tecnologia para uso pessoal do cidadão comum, e foi também o pai do termo Personal Computer (PC). Na primeira edição do catálogo, primeiro parágrafo, a primeira frase já decretava: “Nós somos como deuses, e é melhor que fiquemos bons nisso.” Entre os jovens e fascinados leitores estavam Steve Jobs, Richard Saul Wurman e muitos outros futuros líderes de transformações inovadoras.

Ao WEC atribui-se ainda a consolidação de dois princípios que definiriam o Valley (e o mundo) dali em diante: a ética hacker de que “a informação quer ser livre”, como veríamos mais tarde com o Google; e a ideia então suspeita para muita gente (e até hoje é assim) de que negócios podem ser o motor para o bem. Dando as ferramentas certas as pessoas, qualquer transformação social seria possível.

Nada disso se assemelha a ética carioca, caricata nas letras sobre o “malandro” do também caricato Chico Buarque. Éramos igualmente ambiciosos, mas queríamos o Estado no lugar do DIY, e não gostamos de capitalismo. O resultado não podia ser muito melhor do que realmente é. Felizmente, todavia, as coisas estão mudando, e de fora para dentro, com o sucesso das novas tecnologias que chegam aqui e no mundo inteiro, com seus manuais em código aberto.

Não é necessário jogar nada fora em nossa identidade, ou nada além de nossos vícios. Façamos nós mesmos.

 

Bruno Pesca continua faminto, continua tolo.

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