Recesso em casa

Recesso em casa

 

Imagino que se você ama e pratica um esporte charmoso, viaja o mundo para isso e ainda exibe quase tudo na televisão, é natural que as pessoas lhe façam perguntas. Recebo muitas mensagens de queridos amigos, amigos de amigos, conhecidos e gente no Instagram por conta disso. As pessoas querem dicas de viagem, destinos ou ideias para as férias. Curioso é que, como surfe é o novo golfe, ficou cada dia mais comum gente muito mais bem sucedida na vida que eu pedir-me conselhos.

Esses são os caras da Faria Lima perguntando sobre Indonesia, ou os de Malibu perguntando sobre o Rio (meus amigos em Malibu são somente os salva-vidas, mas eles repassam o contato quando o assunto aparece). São playboys de Nova Iorque perguntando sobre reveillon na Bahia (nada sei sobre), ou surfistas do Leblon interessados na barbada do momento. Nem sempre o perfeito para mim é o mais legal aos outros. De toda forma, divido humildes impressões sobre se vale a pena ou não passar ferias no Havaí, se é seguro ir ao Rio agora, se o Hollister Ranch é mesmo incrível, etc. Refiro-me aqui a um público muito privilegiado, que é minoria absoluta entre as pessoas que conheço, e raríssimo entre os habitantes do planeta.

Baseado no que vi e ouvi viajando, todavia, teria também a eles duas sugestões pontuais sobre como aproveitar recessos sem o ato de viajar a outro país. E como isso jamais perguntaram ou perguntarão, registro-as aqui. Segue.

 

1. Para diversão e prosperidade própria.

Se você é investidor, empreendedor, CEO ou qualquer tipo de sujeito inquieto, e tem uma casa de praia (ou de campo) ou mora numa privilegiada casa na cidade: invista tudo na piscina.

Sob um pretexto qualquer, crie um evento periódico e sagrado, no qual você possa jogar ao mesmo tempo todos os outros empreendedores, investidores e CEOs que você conhece na sua própria piscina. Adicione álcool levemente. Misture. As respostas da sua vida sairão dali! Se não estiver atrás de respostas, sairão dali as perguntas da sua vida. Então, repita o processo para as respostas.

Laird Hamilton e a esposa fazem isso há anos, em Malibu. É o único sujeito do planeta que ficou milionário praticando a atividade de surfista sendo incapaz de qualquer manobra aérea. Parte da explicação está em sua piscina, que o tornou o surfista profissional mais bem capacitado do mundo. Em sua receita não vai álcool, mas sim um treinamento de mergulho que deixa qualquer um tonto. Sua piscina tem quatro metros de profundidade numa parte, escada submersa, sistema de som e slackline. Alguns dos maiores autores de best sellers não-ficção (tanto de livros de saúde e alimentação como os de outras riquezas) estão sempre na piscina, assim como empreendedores malucos, treinadores de atletas de ponta, artistas e patrocinadores do casal.

Por muito tempo, sempre que um novo patamar de swell gigante ou outra modalidade de surfe apareceram, o cara não teve sequer concorrência. Se não é a causa, a piscina ao menos prova correlação de comportamento. Cerque-se de referências úteis. O hábito é algo poderoso.

A mesma coisa é feita por varios astros do Venture Capitalism estadunidense, que reúnem sempre em próprias jacuzzis todos os founders nos quais investiram, para cruzar ideias.

Importante: não precisa ser sempre, mas que seja sempre sagrado.

 

2. Para diversão e prosperidade de filhos adolescentes.

Combine tudo com seu amigo, parente ou prestador de serviço de confiança, e envie seu filho adolescente em estágios de trabalho compulsório nas férias. Refiro-me a um mês de trabalho infantil forçado, coisa ilegal mesmo. Quanto mais radical, melhor.

Gosto muito do exemplo do Chris Sacca, que já li em várias fontes e resume bem o que quero dizer. Seu pai tinha um amigo lobista, que o levava (então com 13 anos) a Washington onde participava de infinitas reuniões com congressistas. Incumbido de anotar tudo, Sacca precisava formular, em uma página, o melhor pitch para o político (geralmente um velho arrogante e boca suja). Um exercício incrível para uma criança. Nas férias seguintes, ajudava a carregar caminhões e fazer limpezas de uma empresa de banheiros químicos ou algo assim, cujo dono era outro amigo de seu pai. Outro exercício casca grossa.

Passando por essas experiências e apanhando um pouco, fica nítido ao moleque que as possibilidades para se ganhar a vida são infinitas a todos, que ele colherá o que plantar, e plantará como puder. Fica mais fácil ganhar autoconfiança, também. Você pode usar as ferramentas e amigos que tiver.

 

Tive minhas próprias experiências do tipo, que prefiro deixar quietas, já que por enquanto nem sabemos se funcionaram. Mas essas seriam duas dicas aleatórias a quem me perguntasse sobre férias em casa. Tenho um baú cheio delas, caso o amigo leitor se interesse.

Há uma série dessas fórmulas que o surfe (ou seu esporte) simplifica. Mas, se você não é envolvido numa tribo assim, não faz mal. Levar a vida na esportiva é direito e dever de todos.

Boas festas.

 

Bruno Pesca permanece de férias, ou recesso continuo.

 

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