A Revolução Será Criptografada

A Revolução Será Criptografada

 

 

 

O Próximo Contrato Social Será Um Smart-Contract.

 

Acontecimentos e inflexões históricas frequentemente ignoram o calendário oficial. Por exemplo, muitos historiadores sugerem que o século XX só começou de fato em 1914. Ocorre que inflexões econômicas também não obedecem à datas políticas. A economia move-se de forma mais gradual, e mesmo que pontos de transição sejam notórios (descoberta do fogo, do carvão, etc), esses nunca foram facilmente identificados em dias do calendário, tal como um tiro num arquiduque foi. Não há bala de prata na solução dos problemas da humanidade. Assim sendo, seria difícil dizer quando exatamente o século atual começou, no plano econômico (se no político teria sido ainda em 1989, com a queda do muro, diz-se).

Pela ótica micro, talvez tenha sido em 1999, no momento de estouro da chamada bolha “ponto-com” e de consolidação da web como ambiente oficial das interações humanas. Pela ótica macro, talvez tenha sido em 2002, com o ingresso da China na OMC e o subsequente deslocamento do eixo de poder econômico no tabuleiro internacional, na direção dos emergentes.

Do ponto de vista tecnológico, todavia, talvez no futuro considerem que verdadeira virada para o século 21 aconteça somente agora. Com um consenso mundial sobre a falência do status quo das sociedades, seja o político (de oligarquias e clientelismos de governo à rigidez das horas de trabalho e mil outros rituais legais e culturais), seja o econômico (do colapso dos sistemas previdenciários e tributários, aos incentivos por resultados trimestrais no setor privado), já é possível dizer que, na cabeça das novas gerações, o algoritmo social  mudou. Isso porque novas realidades já chegaram ao mainstream.

 

e-Luminismo

Das soluções que proliferam-se desde a última grande crise global em 2008, destaca-se a inevitável onda libertária (a turma que odeia Estado, por definição) e seu casamento com os nerds em programação. Disso saiu o famoso Bitcoin, que hoje já pouco importa se está numa bolha ou não, ou se veio para ficar ou não, assim como pouco importa se os libertários são o prenúncio dos próximos séculos ou se não passam dos novos comunistas (mais provável). Fato é que, sem querer querendo, criaram uma tecnologia de integração social que já se mostrou real e aderente, e promete ser mais do que útil: os blockchains e seus cognatos, ou a arquitetura de redes descentralizadas potencialmente capazes de reordenar nada menos que tudo o que chamamos de atividade econômica.

Pense na internet. Ela nada mais é que um conjunto de protocolos (IP, http, www…).  E que fração do PIB global transita pela internet? Repare que não somente comércio e publicações online, mas qualquer simples troca de emails entre funcionários de qualquer empresa também entra na conta. Se o efeito da internet é avassalador na economia, imagine também o que pode vir a ser, por exemplo, o Ethereum. Se você não o conhece, trata-se do primeiro blockchain público desenhado para acomodar e executar smart-contracts, contratos auto-executáveis que simplificarão e muito nossas relações, e tem potencial de erradicar problemas de todo o tipo.

De arquitetura e lógica bem mais sofisticada e versátil que a estrutura do Bitcoin, é verdade que o Ethereum também enfrenta desafios, especialmente na escalabilidade. Eventualmente poderá até ser superado por um concorrente, como o chinês NEO, aparentemente bem mais rápido. Ou talvez a tecnologia vencedora na arquitetura do novo mundo seja o “tangle“, que na verdade não é um blockchain e sim um emaranhado de ligações pré-programadas a se auto programarem, um pouco como as sinapses do cérebro. Essa, aliás, é a aposta do IOTA, a cripto-moeda desenhada estritamente para a internet das coisas.

Ainda que seja impossível prever o nome das redes da quais nossos filhos dependerão, ou até que ponto elas irão de fato colapsar alguns instrumentos básicos de poder milenar do Estado – como a moeda -, já é possível visualizar novos paradigmas.

 

O Espírito das Leis

Sua geladeira percebe que seu telefone acabou de entrar no supermercado, e lhe envia uma lista de coisas que estão faltando. Ou, se preferir, ela avisa diretamente ao supermercado (possivelmente a Amazon) e esse faz a entrega, sem sua interferência. Seu cortador de grama comunica-se também com a casa do vizinho, e você rentabiliza automaticamente, na taxa mais justa possível, seu ativo parado.  O histórico de uso de todo e qualquer ativo fica registrado para sempre, de forma a servir tanto como prova legal quanto como benchmark a novos contratos. A noção de propriedade de bens muda radicalmente, e até a mão invisível do mercado fica menos dependente de braços humanos.

Bem vindo à internet das coisas. Mas não é só isso.

Sua latinha de cerveja fica esquecida na praia, e com um scam o gari sabe que era sua, e você é automaticamente multado. Seus impostos são pagos numa moeda onde escreve-se no código fonte para que fim ela é designada, fazendo com que perca totalmente a validade caso o governante tente desviá-la irregularmente.  Bem vindo ao novo smart-contract social.

 

Post-Petroleum

A barulhenta discussão técnica sobre processamento de meios de pagamento, como as comparações entre os sistemas tradicionais (usados por Visa e Mastercard) com possibilidades em blockchains, é insignificante. O importante é que, somados a outras novidades, como inteligência artificial, eficiência solar, mapeamento e gabarito dos genomas, democratização da internet, etc, os blockchains formam a base da nova revolução industrial em curso.

E seja como for, nada depende das incríveis novas baterias de lítio. Dessa vez, os combustíveis de sobrevivência a qualquer nação são dois antigos:  educação e criatividade.

Vivemos a era mais excitante que o Sapiens já protagonizou. O desenvolvimento tecnológico das sociedades ao longo de nossas vidas é exponencialmente superior a toda história anterior das civilizações humanas. E enquanto a classe média americana hipoteca suas casas para apostar em Bitcoin, negligencia a avenida de possibilidades sem precedentes para a criação, a custo zero, de novos serviços e riquezas, a partir do Ethereum e outras redes. Quem se antecipar neste desbravamento encontrará o mesmo encontrado pelos puritanos desembarcados do Mayflower: um continente inteiro a explorar, onde o que você pegar é seu.

 

Cândido, Ou O Otimismo

As novas tecnologias são a chance de qualquer um para a volta por cima econômica, a partir de um novo ordenamento da riqueza global. Tal como foi a descoberta das Américas, mas com duas diferenças: não é necessário matar índios, nem ser cidadão de algum país específico. As ferramentas são acessíveis a literalmente qualquer um, como a história do próprio Ethereum, criado por um jovem russo, prova.

Aliás, jovens reunidos em pequenos grupos são a grande ameaça à sobrevivência de qualquer grande empresa hoje, incluindo o Google. Seria ótimo que o Brasil produzisse também ameaças assim.

 

Bruno Pesca estudou mandarim, mas procura um curso do idioma Solidity  para o filho.

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