O Preço da Ausência

O Preço da Ausência

A “próxima geração” nunca senta-se à mesa de debate, mas sempre paga a conta.

 

Um famoso corolário da vida diz que o mundo que deixamos para os filhos depende dos filhos que deixamos para o mundo. Primeiro, porque o viés de gênero sobre a sinopse de suas realidades – isto é, a decisão sobre encarar como comédia ou drama o mesmo filme da vida – depende fundamentalmente da educação que damos a eles. Querendo ou não, todos usamos algum tipo de óculos, e querendo ou não são os pais quem primeiro nos ensinam qual escolher. Segundo, porque de fato nossos filhos decidirão, no futuro, sobre escolhas reais do mundo.  Isso parece óbvio, mas na prática não respeitamos.

Na relação com o tempo, duas práticas da vida entre os homens parecem constantes na história, e facilmente observadas nos discursos dos protagonistas da política institucional, os políticos: empurrar a culpa a quem já morreu; e empurrar a conta a quem ainda não nasceu. É um fenômeno biológico, de sobrevivência ao presente. Para o presente, o ausente nunca tem razão. 

Quem assiste ao National Geographic sabe o quão cruel é o mundo animal. Não por isso sua beleza e perfeição são ofuscadas. Sobreviver é imperativo a cada agente, e as coisas são como são, sendo tal sistema o mais eficiente ao conjunto e o mais justo com o futuro. Ocorre que os animais só alcançam o aqui e o agora em suas decisões econômicas, no máximo fazem poupança para o próximo inverno. Isso aliás merece comentário: a única decisão econômica que tomam visando o futuro é de poupar. Animais em ecossistemas saudáveis não hipotecam florestas, não tomam recursos emprestado dos próprios filhotes. Se em situações anormais passam a fazer isso, recebem o nome de pragas.

O homem do século 20 foi uma praga ao próprio habitat. Não por mal, mas por incongruência entre o novo poder de alcance e o velho instinto.  É como o descompasso entre Uber e legislações municipais, ou mais atualmente, blockchains e legislações federais. O problema todo é que sofrimento e prejuízo dos ausentes não são capazes de nos sensibilizar. Tal indiferença é ótima para os animais, mas torna-se um enorme problema estrutural se esses passam a ter acesso a exploração imediata do futuro da floresta, às frutas de árvores que ainda nem cresceram.

Consumo e comércio de bens ilegais, ou de bens legais fabricados ilegalmente, são prova nítida e tangível do mecanismo da indiferença. As pessoas são capazes de chorar por cenas condenáveis, mas continuam a consumir suas causas e patrocinar tais eventos quando as esquecem.  Atitudes cruéis com outros também são as que subtraem dos mais inocentes (as crianças e os que ainda não nasceram), de forma invisível. Entretanto, devastar o futuro já não é prescrito no reino animal.

O sistema previdenciário brasileiro é um exemplo grotesco. A receita é por lei menor do que a despesa, que por lei também cresce mais. A constituição brasileira ignora as leis da matemática e da física, e o eleitor refugia-se em argumentos inverossímeis e insustentáveis dos grupos que corrompem o “viés de confirmação” (a necessidade de ouvir o que queremos) para benefício próprio. Para citar uma das maluquices inéditas do país, dois terços dos “velhinhos” da previdência pública fluminense aposentam-se aos 48 anos de idade, com base no último salário e não na média (como no setor privado), e crescem a taxas maiores do que os novos ingressantes no sistema (demografia). Professores e policiais ganham misérias porque é o único jeito matemático, mesmo se Jesus em pessoa governasse, de pagar todos como a lei exige. Escolhemos assim. 

A questão central, contudo, transcende a previdência e o Brasil. Obviamente, transcende o presente. Pelos parâmetros econômicos atuais, a qualidade de nossa jornada ao futuro é medida pelo cálculo do PIB, o qual apresenta o mesmo problema. Economistas lembram (ou deveriam) do exemplo da água, apresentado por Alfred Marshall. Um vilarejo é abençoado com um açude de água limpa e gratuita. Daí alguém contamina a água. Agora, para bebê-la, as pessoas precisam pagar por serviços (filtragem, análise, distribuição, etc.). A vida piorou muito, mas os novos serviços aumentaram o PIB. E aí? Pagaremos em breve por acesso ao ar limpo?

De certo modo, a culpa é sim de quem já morreu. O Brasil, por exemplo, foi colonizado por uma exploração, e quando a coroa portuguesa sumiu do controle um grupo tratou de ocupar seu espaço e seus privilégios na administração pública, organizar-se em corporativismo e perpetuidade, formar seus partidos políticos e vender a lorota de que defendem os mais pobres. O hábito sobrevive a gerações, vira a cultura.  Mas a responsabilidade de mudá-lo é sempre nossa.

Não há almoço grátis na floresta, tudo é pelo equilíbrio. Mesmo no reino animal, as colaborações entre espécies não são filantropia. Toda vez que consumimos algo gratuito, como o ar, é preciso lembrar que os proprietários são as gerações futuras, que graças a sua ausência não podem nos cobrar por ele. Não queremos pagar para respirar, claro, mas exatamente por isso não devíamos permitir que poluí-lo para as gerações futuras seja gratuito. Ou permitir que gastar muito mais em previdência de eleitores atuais do que na educação de eleitores futuros seja gratuito. Tudo isso sempre teve um preço alto, empurrado para o futuro. Todo ativo que transcende nossa estadia no planeta deveria ser considerado ativo sagrado, e protegido de acordo. Nossa interpretação sobre gratuidade é equivocada, é a mentalidade das pragas. 

O preço da ausência, para nossos filhos e netos, é a ausência de preços, para nós, sobre o que a eles pertence. A biologia foi escrita para animais que não tinham máquinas do tempo, não conseguiam subtrair do futuro. Precisamos atualizar as leis humanas frente a evolução tecnológica que vivemos.

Não é uma ideia que nossos pais nos deixaram. Mesmo assim, precisamos deixa-lá ao mundo. 

 

Bruno Pesca não tem culpa se o artigo incomoda, nem paga a conta da irritação do leitor.

   

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