Brasileiro #1

Brasileiro #1

Todo mundo no Brasil já ouvira falar na família Marinho. Eles fundaram um dos primeiros jornais do país, por décadas um grande jornal, e grandes foram também os tentáculos de suas empresas, o Grupo Globo, na comunicação brasileira. A TV Globo, uma das maiores emissoras de TV do planeta, muito por conta de seu gigantismo sempre sofria acusações sobre manipular informações, acusações geralmente infundadas, coisas de país atrasado. Em linhas gerais, a família Marinho sempre adotou a postura de não se meter no conteúdo de seus jornais e programas de TV, preferindo sua parte em dinheiro. Tal postura manteve-se viva até sua terceira geração, quando três irmãos tocaram juntos por décadas os negócios. Discretos, poucos brasileiros os reconheceriam na rua, até um dia em novembro de 2018.

Todos no Brasil também se lembram do ano de 2018. O país saía de anos de recessão e estado policial, ou achava que saía, quando um condenado judicialmente por corrupção venceu a eleição presidencial. Os ânimos se acirraram, a justiça ordenou novas eleições, o presidente em exercício tentou manipulá-las e sofreu intervenção dos militares que ele mesmo havia aproximado ao poder. O país perdeu seus ratings, sua credibilidade, seus investidores e até vários de seus clientes, que embargaram os produtos. Como se não bastasse a derrota de 8×0 na Copa da Russia, para a Espanha. Que momento. Quando o Brasil se recuperava de um nocaute, recebeu outro, definitivo.

Foi então que o evento mais esquisito da vida dos brasileiros aconteceu. No dia seguinte à proclamação do regime militar, com todas as atenções ligadas em noticiários, todos os espectadores de canais, assinantes e navegantes de qualquer portal, rede ou canal do Grupo Globo receberam o inédito alerta para que ligassem na TV Globo. No lugar do Jornal Nacional, que jamais entrou, uma tela branca com a mensagem “aguarde” e um cronômetro de trinta minutos, tempo o suficiente para que o boca a boca parasse o país. Findo a regressiva, três homens bem vestidos aparecem na tela, sentados de frente a uma câmera, e apresentam-se: Roberto Irineu, José Roberto e João Roberto Marinho.

“Brasileiros, boa noite.”, começou Roberto Irineu, o mais velho. “Durante nossas vidas sempre nos preocupamos em trazer o melhor serviço possível a vocês, e a forma sempre foi encontrar e empoderar os melhores talentos comunicadores, levando ao país conteúdo sobre o qual jamais opinamos.”

“Jamais imaginamos, porém”, continuou José Roberto, “que o Brasil retrocedesse ao nível que retrocedeu. E assim como você, amigo espectador, estamos desolados, desiludidos. Sentimos que falhamos em nossa missão de vida, apesar de termos ganho muito com ela.”

João Roberto completou: “Investimos boa parcela do que sempre ganhamos em educação nacional. Hoje, não sabemos se adiantou. Mas, em nossa própria educação, aprendemos também que não fizemos mais que nossa obrigação. E não só isso, aprendemos que não é saudável ou correto deixarmos tanto dinheiro ou poder a nossos próprios herdeiros.”

A partir daí, os irmãos passaram a ler um texto em papel, revezando-se na arguição de cada frase, que diziam:

“Nossa importância na comunicação do Brasil termina aqui. O futuro do Grupo Globo passa a ficar nas mãos de vocês. Ou de um de vocês. Durante os últimos dois anos, preparamos um protocolo para o caso dessa tragédia, e o apresentamos a vocês agora. Escondemos três senhas dentro de nosso acervo de conteúdo. Ao encontrar a primeira, a pessoa saberá que encontrou, e saberá como seguir em frente. Tudo foi desenhado para que somente alguém com todos os valores que o país precisa vença o desafio. O primeiro brasileiro que desbloquear as três senhas será o dono do Grupo Globo. Deixaremos aqui a única pista inicial. Sem mais. Boa noite.”

Os três irmãos saíram do ar, deixando o país boquiaberto. Uma tela preta seguiu-se por dez minutos, até que nela, um texto em fonte branca e negrito apareceu:

“ A gente se liga em você

Desde que você nasceu, outro dia

E se desaprender é saber

Três passos inocentes, que ironia

Revelam sua própria magia

E farão o mundo ler:

Globo e você, tudo a ver.”

O poema ficou no ar, tampando todos os canais e sites do grupo, imóvel por doze horas. No dia seguinte, a programação voltou ao normal. Jamais ouviu-se nada oficial sobre o assunto. Aos poucos, humoristas foram debochando, analistas opinando, detetives aparecendo. Especulava-se o que queria dizer “desaprender é saber” ou “nasceu outro dia”, especulava-se tudo. As pessoas passaram a investir todo seu tempo revendo conteúdo da Globo, vasculhando a esmo. Todo mundo fez isso. Estrangeiros vieram. Até os militares organizaram seu próprio grupo de inteligência para vencer o desafio.

Os irmãos Marinho nunca mais foram vistos em público. Um ano se passou, ninguém parecia ter feito progresso. Dois anos, três anos. O assunto começava a esfriar, as pessoas não acreditavam mais que o desafio era real, ou se ainda acreditavam, começavam a desistir. Até que em 19 de janeiro de 2025, João Roberto Marinho voltou a tela. A informação que um jovem de dezenove anos, morador de Vitória, desbloqueou a primeira senha foi anunciada.

A fábula que acabo de inventar é uma adaptação tupiniquim ao fantástico livro Ready Player One (traduzido como “Jogador #1”), de Ernest Cline. Se você não o leu, tem agora a chance de vê-la no cinema, pelas mãos de Steven Spielberg. Em um futuro catastrófico onde a humanidade se afundou nas próprias armadilhas, as pessoas viram as costas para a realidade e um novo tecido social, mágico e multi-dimensional, é criado pela realidade virtual. O criador magnânimo dessa realidade, assustado e arrependido, propõe esse mesmo desafio, abusando do acervo de referências à sua infância nos anos 80.

A história traz um vislumbre realista sobre os dilemas que as próximas gerações terão com a realidade virtual, que tem pretensões ambiciosas como envolver as pessoas 100% do tempo, com profundos impactos políticos e econômicos. Por essa razão, muita gente apontou o livro como o novo 1984. Mas assim como eu fiz, Cline optou pelo pior cenário possível, para extrapolar sua tese.

Recomendo, mas não é uma história sobre o futuro ou sobre realidade virtual. É uma fábula atemporal e universal sobre o presente: as senhas para seu supremo sucesso sempre estiveram e estarão disponíveis no mundo, seja você quem for. Mesmo que você não se ligue.

“A gente se liga em você.”

Bruno Pesca

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