Cripto Em Prosa

Por que esta carta?


Se você até hoje não entendeu de fato por que atrás das criptomoedas e dos market places de inúteis arquivos
.jpeg há sim, necessariamente, implicações bíblicas para as sociedades no longo prazo, não se sinta mal. Você não
está sozinho e a culpa não é sua.
O cérebro animal é programado no ver para crer, sendo o adverbio que trata disso o como, não o por que,
comumente relegado às crianças e aos filósofos que, como disse Kant, nunca viram a coisa em si.
Richard Feynman dizia que a maior lição de física que recebeu de seu pai na infância foi a de que ninguém sabe a
razão das Leis de Newton existirem. Não obstante, quando indagados pelos filhos sobre a razão de um corpo
tender ao chão, a maioria dos pais logo trata de sumarizar como a gravidade age, como se isso respondesse à
pergunta. “Bebo-o porque é líquido”. Na frase irônica de Jânio Quadros, não é tão óbvio quantificar se há mais
cinismo ou confissão: se esquecemos porque fazemos algo, o próprio modo de se fazer acaba inexoravelmente
corrompido. Não chega a surpreender, por exemplo, que estudantes optem pelo curso de economia na
expectativa de aprender tudo sobre dinheiro; e o concluam sem reparar que a teoria clássica, eixo até hoje central
da academia, considera o dinheiro irrelevante, literalmente.
Em suma, na correria da vida tudo acontece como num cockpit de Fórmula 1, onde a máxima parece ser mesmo o
título de nossa série antropológica predileta na Netflix: Drive to Survive. Descobrir como é envolvente; descobrir
por que está fora da roteiro.
Esta carta não tentará explicar como funcionam redes descentralizadas, transações em bloco, protocolos
bizantinos, proof-of-stake ou smart-contracts. Tampouco apresentará comparativos de Layer 1’s ou debates do
momento como o dos rollups (zero-knowledge vs optimism). Tudo isso é sobre como a coisa funciona. O acesso a
estas informações é gratuito na web, e sua oferta é tão abundante quanto a de supostos especialistas no assunto.
Ao invés disso, divido nela uma interpretação não-qualificada, em ótica humanista, sobre por que o tema tanto me
importa. Mera opinião.
Fica ao leitor a prerrogativa de absorver quanto quiser ou desconsiderar tudo.

Disclaimer

“Depois que a pasta de dente deixa o dentifrício, é muito difícil que ela volte. É preciso levar isso em consideração.” – Dilma

Roussef, Presidente do Brasil (2013-2016)

Ser investidor em novas tecnologias é como ser investidor em qualquer outra coisa. O exercício de tentar prever o
futuro está inerentemente no verbo investir, não no termo tech, tão vago quanto onipresente. O cérebro humano
é uma tecnologia, e em última instância a única em que se investe.
E em meio as novidades que geramos, é preciso separar o abstrato, o novo conhecimento – quando a ciência cruza
um Rubicon, ou a pasta de dente sai do tubo – dos novos produtos e aplicações que dele pipocam. Apostar nestes
últimos é sempre uma incógnita, enquanto apostar no primeiro seria mais seguro do que renda fixa
(especialmente nos dias de hoje), não fosse o fato que o investidor precisa, objetivamente, alocar o dinheiro em
alguma representação concreta do hipotético Rubicon.
Veja-se o caso da mencionada Netflix. Enquanto ela inaugurou um padrão e foi premiada, quem hoje se lembra do
TiVo, a primeira startup que apostou na ideia de que o consumidor de audiovisual é soberano para escolher seus
próprios horários, sem anúncio comercial? Em essência, a mesma proposição de valor do streaming, mas
operacionalizado e comunicado de outra forma. Foi um fiasco. Não se pode mesmo assim dizer, de jeito algum,
que o investidor no TiVo errou no abstrato. O gargalo é no concreto: uma vez que a inteligência humana cruza um
Rubicon tecnológico, não faltarão tentativas tão legítimas quanto frustradas de se induzir a psique coletiva
(demanda) ao mesmo movimento. Mesmo quando não se cruzou nada, não faltarão as mesmas tentativas e
narrativas, e isso desconsiderando as nem tão legítimas assim.
Há disponível no YT uma palestra de Peter Thiel, em 1999. Nela, Thiel apresenta sua visão sobre como a mão
invisível do capitalismo virtual levaria às sociedades a um nível tão inédito de auto-entedimento e auto-
governança econômica que a ferramenta principal para tanto, o dinheiro, provavelmente não mais sequer exigiria
a pilotagem de um empregado (Estado), contratado para centralizar sua gestão. Julgando-se pela assertividade de
Thiel, parece hoje que a descoberta de Satoshi Nakamoto, dez anos depois, foi uma ocorrência tão aleatória
quanto inevitável.
Estejam elas certas ou erradas, quando projeções sobre o futuro se valem de assimetria de conhecimento, a
maioria deseducada reage como alcança: “Isso é futorologia!” De novo a Netflix (este texto não é patrocinado)
produziu uma ótima sátira a respeito, “Don’t Look Up”. Do ponto de vista do investidor, todavia, há sempre um
intervalo de tempo em que o meteoro segue curso, e há a sabedoria milenar de que sua curva precisará
demonstrar certo padrão (gaussiano) se quiser mesmo atingir a Terra. Daí, bastaria monitorarmos alguns tipping
points. O quão diferente é isso de se apostar numa curva de juros?
Em 2016, três meses antes de descobrir o Ethereum, esbarrei no livro The Third Wave, de Steve Case (fundador da
AOL). Case prenunciava a “terceira onda” da internet, na qual empreendedores transformariam finalmente “o
mundo real” e, para tanto, teriam que agir em coordenação com reguladores, meio como ou mais que na primeira,
e diferentemente da segunda onda. Não havia no livro qualquer menção a blockchains ou criptografia (se bem me
lembro), mas sua perspicácia analítica atende perfeitamente a ideia de Web 3 que, nesse sentido, é também uma
ocorrência inevitável.
Enquanto ciências humanas são subjetivas, a ciência da computação, por exemplo, não é. Uma vez que o
laboratório prova, formalmente, algo como replicável a custo irrisório, não é preciso aguardar o mercado. Basta
inferir (especular) demanda. É claro que inferir demanda sempre foi o problema todo. Mas é também,
fundamentalmente, um exercício muito mais conservador do que parece.

Freud aconselha apostar-se na repetição. Menos do que futurologia, é mais sobre uma constatação do presente à
luz do passado, e sua suposta projeção segura ao amanhã.

A história rima
Isaac Newton nasceu somente no século dezessete. Maçãs já existiam há milênios, e a gravidade há bem mais
tempo. De alguma forma, a humanidade sobreviveu bem (e obrigado) mesmo antes do entendimento básico de
física que ele formulou. Adam Smith tampouco foi o primeiro a articular sobre como uma sociedade moderna
sobrevive, sendo moderna aí uma palavra-chave: em todo e qualquer período histórico, por mais rudimentar que a
mentalidade nos pareça em retrospecto, existia tanto quanto hoje uma elite intelectual moderna, relativamente
confiante de seu senso crítico e relativamente satisfeita com o conhecimento que acumulava.
Antes da economia clássica aparecer, a fisiocracia francesa decretava que a natureza (em especial o solo) é a única
criadora de riqueza econômica, sendo qualquer atividade humana mera transferência ou reembalagem desta.
Smith achou absurdo, propondo que riqueza se gera com suor humano. Mas na falta de métricas melhores, sua
escola tratou de medir valor a partir de seu custo em horas de trabalho. Aos olhos de hoje, ambos os casos
ilustram como restrições tecnológicas limitam e definem não somente o que fazemos na prática, com nossas horas
de vida, como também nosso alcance reflexivo sobre o que somos, enquanto homo economicus. Quem intuísse a
lógica de Smith na França fisiocrata seria considerado analfabeto econômico. Nada mais familiar hoje.
Somente muito depois, alguém (Schumpeter) alçou tecnologia e inovação ao centro do debate, remetendo-se
assim à noção moderna de produtividade. Não por coincidência, Schumpeter nasceu na Europa do fim do século
dezenove. A França vivia a Belle Epoque; a Inglaterra, a Era Vitoriana. Nas Américas, enquanto isso, os EUA viviam
seu Gilded Age. Foram muitas as variações de nomenclatura para a mesma onda de prosperidade e
desenvolvimento econômico ocidental sem precedentes, engendrado sobretudo a partir da Primeira Revolução
Industrial, décadas antes.
Numa revolução industrial, desdobramentos são exponenciais e derivadas são imprevisíveis. O processo é
geométrico e sucessivo.
O fantástico livro Empires of Light (Jill Jones) conta a história da corrida industrial pela eletricidade ao fim daquele
século (19), capitaneada pelas contraposições de Thomas Edison, Nicola Tesla e George Westinghouse. Há muitos
paralelos entre a corrida dos três e a guerra atual dos blockchains (L1s). Se a opinião pública era incapaz de inferir
que dali viria a televisão, o que dizer então de computadores? Um século depois, no entanto, Bill Gates era
caçoado por David Letterman num programa de TV ao apresentar sua visão sobre o que seria a internet. Aos
ouvidos do apresentador, esta parecia não servir para nada.
No mesmo ano de 1995, o então empreendedor Marc Andreessen explicava a uma CPI em Washington porque
diabos alguém que não fosse um terrorista se interessaria em transmitir dados criptografados na web. A Netscape
havia inventado e comercializado o SSL, protocolo que deu bases ao hábito de digitarmos dados de cartão de
crédito em websites (o e-commerce era conceito inalcançável aos políticos). Para tanto, valeu-se de técnica até
então exclusiva das forças armadas: criptografia. A palavra “crypto” tinha tanto peso quanto a palavra “nuke”, e a
Netscape só pode exportar as versões mais precárias de seu software, inicialmente, obedecendo restrições
impostas a empresas que fabricam equipamentos estratégicos de defesa. Pouco isso importou a outros países. A
técnica foi copiada.
Como se sabe, é recorrente na história que inovações criadas por militares ou a partir de pesquisas acadêmicas
financiadas pelo setor público tornem-se aplicações disruptivas no capitalismo privado. Mais do que recorrente, é
a regra padrão. (A economista italiana Mariana Mazzucato escreveu um famoso livro a respeito, “O Estado
Empreendedor”.) Vale lembrar que até 1991, a internet era ela mesma objeto de pesquisa acadêmica universitária
financiada por um braço de P&D do Departamento de Defesa, motivo pelo qual qualquer que fosse seu uso
comercial era considerado crime, pela lei estadunidense. Curioso é que na mesma CPI de 1995, um senador pouco
simpático aos empreendedores alegou ter lido dados comprovando que os maiores beneficiados pela internet

eram as atividades ilícitas. Provavelmente era verdade. Se há algo que criminosos jamais poderão ser acusados é
de não serem early adopters.
Como também se sabe, boa parte dos entusiastas iniciais do bitcoin foram os libertários, aquela turma movida por
convicções ideológicas bastante duvidosas, os novos comunistas (com o sinal trocado), um pouco como o
bolsonarismo seria o novo lulismo. Mas é preciso lembrar que ideologias também financiaram o movimento open
source que tanto educou mão de obra para a indústria dos softwares, e que o próprio desenvolvimento do
computador pessoal é em certo modo fruto da onda contracultural dos anos de 1960.
A história não se repete mas rima, segundo Mark Twain.
O termo cripto voltou na última década, e dessa vez trouxe mais barulho e causou mais incômodos, se a petulância
dos inovadores chega a anunciar o fim próximo não mais de gravadoras musicais ou motoristas de taxi, mas sim
até dos bancos, incluindo o banco central. Velhos expoentes do mercado de capitais morderam a isca da biologia,
reagindo como pede o termo establishment.
Quando embarquei no bitcoin pela primeira vez, em 2014, fui alertado que se tratava da nova Febre das Tulipas
(1636-37). Embora reconheça que a alusão seja intuitiva – especialmente a quem limitou-se a avaliar de fato não
muito mais que 140 caracteres de cada uma das duas coisas -, tive enorme dificuldade na associação.
Primeiro, o evento holandês se deu praticamente após a inauguração (1611) do próprio conceito de sociedade civil
transacionando ações em bolsa de valores, financiando assim o capitalismo em escala (no caso a VOC, a Cia das
Indias Orientais Holandesa). As tulipas eram somente as especiarias da moda, diante de uma demanda – essa sim –
inédita (iniciante e deseducada) de investidores, numa praça financeira que precisaria explodir uma bolha para se
consolidar.
Segundo, Satoshi Nakamoto elucidara de forma simples e robusta a técnica para um “peer-to-peer eletronic cash
system”, exalando não apenas elegância computacional mas erudição microeconômica: diante da inovação, a
indústria de pagamentos (+U$500bi cap, faturamento de mais de U$100bi) passaria a ser cara e ineficiente,
segundo sua tese original (da qual nunca subscrevi, ironicamente). Por que um software que supostamente
aposentaria a despesa de mais de +U$100bi não teria “valor intrínseco”? Além disso, não é que os irmãos
Winklevoss e outros milhares, incluindo eu mesmo, jamais antes tivéssemos tido acesso permitido ao mercado de
capitais ou ao ownership especulativo de “qualquer coisa que fosse”.
Aos poucos, todavia, seja pelo medo de um momento Kodak ou seja porque o freguês tem sempre razão, a
retórica da indústria financeira pivotou. Isso aconteceu especialmente após de 2020, senão por excesso de tempo
para finalmente estudar, certamente por excesso de liquidez (nesse sentido, a condição de bolha sempre foi óbvia
e pouco relevante).
Por todas as razões, parece mesmo haver na história evolutiva do capitalismo e da metamorfose humana -mudar
para continuar igual – algo como aquela piada sobre a diferença entre recessão e depressão, aliás pertinente
(duplamente) atualmente: disrupção é quando aposentam os conceitos de seu vizinho; burrice (definição de Jamie
Dimon sobre comprar btc) é quando atacam os seus.
Mark Twain estava certo.

A descoberta do fogo
Desde final dos anos oitenta, a ciência da computação tentava resolver o problema computacional que a
contabilidade da vida chama de double-spending. Enquanto no mundo físico dos átomos é impossível que um
surfista venda sua prancha a terceiros e ao mesmo tempo a preserve em sua garagem, no mundo digital dos bits,
tipicamente, o mesmo objeto pode habitar infinitas pastas diferentes. Quem já enviou um nudes e se arrependeu
sabe que é inútil pedi-lo de volta. Se este lhe parece um problema tangível mas de pouca relevância (numa

hipotética matriz de risco de estagnação econômica das sociedades), saiba que também assim foi inicialmente
entendida a lâmpada de Edison, que não exatamente inventou a iluminação incandescente, mas sim ‘tornou viável
(economicamente) uma velha ciência.
Satoshi Nakamoto, em 2009, publicou a solução definitiva do problema. Não há qualquer risco no uso do adjetivo
(“definitivo”), se pouco importa se sua engenharia é economicamente eficiente. Importa que sua prova de
conceito funciona. O mercado faz o resto.
É provável que você já tenha lido dezenas de explicações sobre por que o nome do bicho é blockchain, como
funcionam nodes e hash rates etc. Mesmo assim, é provável que não tenha captado a real profundidade da
discussão. Afinal, mesmo após suas leituras, você quer saber se o PIX está “na blockchain”, certo? (dica: se você
assistiu Flamengo X Vasco gratuitamente através de sinal digital, nem por isso assistiu e-sport).
Tentarei de outra forma.
Até uns 5 mil anos atrás, nenhum humano vivia em nada mais complexo que uma tribo de 150 pessoas. A
governança de 150 é mais simples do que a de 150 milhões. Numa tribo pequena, muita coisa se resolve de boca, e
testemunho a olho nu, simplesmente. Como a oferta de paredões de pedra é limitada, não daria para se registrar
na pedra tudo que fosse combinado. Aí as sociedades foram crescendo, e por necessidade inventamos
contabilidade, livros, bancos, etc. Aí inventamos os computadores e depois a internet, mas isso foi ontem. As
coisas que acabei de citar já existiam há muito tempo, fazendo a sociedade -como sempre – sobreviver bem
(obrigado!). Mas aos poucos, as pessoas começaram a escrever softwares em cima do mundo novo, e os softwares
começaram a aposentar hardwares. Primeiro, a Microsoft aposentou a sala de almoxarifado. Depois, a sociedade
foi se alfabetizando e escrevendo mais softwares: bancos aposentaram suas agências etc.
Anos atrás, usava-se uma penca de hard drives externos para se armazenar muito conteúdo no computador.
Depois, a assinatura de serviços em nuvens (AWS, Google, etc) substituiu a compra de HDs, tal como os e-mails já
haviam substituído o correio de papel. A computação em nuvem portanto já era, em si, tal como antes dela a
própria internet, outra expressão do fenômeno de desmaterialização (substituição de hardware por software), cujo
melhor exemplo é o smart phone. O quão ecológico é um iPhone? Um iPhone é um hardware que dispensou a
fabricação de N outros (câmera fotográfica, bússola, calculadora, etc), contidos nele em N softwares (apps).
Essencialmente, blockchain é mais um template de software que substitui milhões de hardwares. A única diferença
é que ele transcende, computacionalmente. Foi longe demais na missão. Isso porque o hardware que ele acusa
desmaterializar é o próprio arcabouço conceitual de instituições sociais que sustentam a complexidade política de
uma tribo de 150 milhões.
Trata-se de um axioma computacional básico. Meu filho que adora Lego conhece. Com o tempo, um sistema
complexo recebe alterações marginais na direção de ganhos marginais, sucessivamente. Mas o melhor que se
consegue é otimizar o status quo anterior. Por exemplo, Charles Medina conseguiria otimizar meu potencial como
surfista, mas não poderia me transformar em campeão mundial, como fez com o Gabriel. Mesmo o Gabriel Medina
não poderá ser campeão para sempre. Em algum momento ele estagnará, enquanto o esporte (demanda) não.
Então, será tecnicamente mais provável e economicamente mais viável construir o próximo título a partir de um
moleque novo. Computadores são feitos assim. A geração seguinte faz um buffer 10% mais largo, a outra geração
também. Até que em algum momento, o arranjo atual das peças passa a ser o próprio limitador. Usa-se a
concepção atualizada para se desfazer tudo e construir outro do zero (PCs são refeitos do zero a cada dez anos),
pois não existe “fim da história” (ao contrário do que Hegel e Fukuyama escreveram).
Essa é a gritante sugestão atual. Blockchains são como a descoberta do fogo no mundo dos bits, uma vez que são
softwares que revolucionam o próprio conceito de software. Isso porque invertem toda a hierarquia da
computação. Por definição, qualquer outro software é submisso a um hardware (servidor, armazém,
programador…) que por sua vez é submisso a um agente humano (empresa). Blockchains, ao contrário, são
códigos soberanos, sendo quaisquer hardwares (humanos) a eles conectados, submissos. “Deus é testemunha”,
dizia-se em pequenas tribos religiosas. Blockchains formalizam isso. A partir de agora, aprendemos a armazenar,

valorar e transacionar todo e qualquer dado relativo a nosso passado e presente num registrador comum (público)
que mesmo assim não nos expõe, mas prova ao mundo o que quisermos provar sobre nós mesmos.
O barulho do debate enfatiza o prisma da descentralização, termo conceitualmente correto. Outrossim, desconfio
ser por isso que ninguém entende muito. Imagine se o jurista tivesse dito que a “Constituição será
descentralizada”? É a exata mesma atribuição que soberana, se o poder emana do povo. Mas a Bolívia teria
rasgado a sua ainda mais vezes, talvez.
Blockchains, ao contrário, são radicalmente secos e objetivos. Se bem escritos, não geram qualquer incentivo para
a chamada de assembleias constituintes.
Trata-se da base para a verdadeira digitalização das sociedades, a transição do Rousseau1789 para o primeiro e-
Contract Social. Tudo isso apenas se resolvendo o double-spending.

Smart Contracts e o circo voador
A primeira versão de blockchain a ir ao ar foi a Bitcoin Network. O assunto BTC merece outra carta (spoiler: a tese
do ouro digital e seus problemas). Passo a diante, comentando somente que a bitcoin network é um computador
muito precário: além de um tanto lento, não aceita nenhuma programação.
Daí que, em 2015, o assunto havia cooptado uma legião mundial de nerds pasmados. Assim, uma segunda fase
começou no Cripto Valley (Zug, na Suíça), para onde estes nerds haviam migrado. Em resposta às limitações
impostas pela arquitetura do Bitcoin, criaram ali outro computador em nuvem, dessa vez um em que se pudesse
programar coisas. Nascia o computador Ethereum.
No âmbito das assertivas políticas e econômicas contidas nesta presente carta, é o Ethereum a grande prova de
conceito bem-sucedida. “Digam ao povo que a república está feita”, poderia ter dito Vitalik Buterin, criador
principal, parafraseando nosso Marechal Deodoro e valendo-se de sua crença de que a subjetividade humana
(tanto quanto as leis da natureza) não passa de uma grande programação computacional. É claro que, tanto em
ciências como em normas culturais, as coisas se fazem lenta e continuamente, e implementações assim demoram
gerações; ao passo que em 1889, na ocasião da frase, o Brasil de fato consumou (carnalmente) o ato. Por outro
lado, uma vez que a pasta de dentes sai do dentifrício, ela não volta. É impossível fingir que não aprendemos uma
solução.
A solução computacional em questão é o smart contract. Como o nome diz, são contratos inteligentes, adjetivo
que se deve ao fato de que os contratos se auto executam, como se a vida real do indivíduo fosse sua planilha
pessoal de Excel.
Por exemplo, posso programar com um smart contract que caso a inflação americana venha abaixo de x,
imediatamente compro um lote n do ativo y. No exato instante que o dado oficial do CPI for divulgado, o contrato
usará um oráculo para sabê-lo, e tomará do mercado um lote n de y, automaticamente. Posso oferecer
recompensa para quem trouxer meu carro do ponto A para o ponto B, de forma que assim que a pessoa abrir o
carro conecta-se ao contrato (e pelo contrato, se não for qualificada não consegue abrir o carro), e assim que o
mesmo cruzar a cancela do ponto B ela recebe o dinheiro. Posso oferecer dinheiro para uma pessoa completar um
teste de gramática da língua portuguesa, pagando de acordo com a nota no teste, desde que ela só consiga log-in
no contrato se provar que vive no Complexo da Maré e nasceu há menos de quinze anos atrás.
Em suma, muito do que se pode fazer com blockchains e smart contracts (ou ao menos a parte que se pode
antever) não passa do mesmo que já fazemos (fundamentalmente) desde sempre, e mais na prática, do mesmo
que podemos fazer combinando-se outros softwares que já se comprava por aí. Provavelmente é por isso que o
Nouriel Roubini e outros patetas gastaram metade de um dia realmente estudando o assunto, e metade de uma
década decretando sua inutilidade.

Mas há uma pequena grande diferença em relação ao que já estava sob o sol. É a soberania do contrato. Ela
elimina o caráter peer-to-peer das transações, mesmo sem adicionar nenhuma outra parte (não há fiadores ou
intermediários, somente os dois peers) à trama.
Transações p2p são tão antigas quanto o próprio Homem. Quando Alexandre, O grande disse a Diógenes que lhe
daria qualquer coisa que este lhe pedisse, propôs um contrato p2p (no caso, “A” compromete-se a entregar o
mundo a “B”) que pressupõe uma transação futura na qual a outra parte precisa acreditar. Para tanto, precisa-se
de confiança entre as partes. De fato, manuais de introdução a economia ensinam logo que confiança é o nome do
jogo.
Não mais.
O mundo dos smart contracts não necessita confiança entre as partes, menos ainda intermediação (transferência
de tal risco de confiança, com certo custo) para tanto. Isso porque onde havia um relacionamento p2p passam a
acontecer dois relacionamentos p2c’s (peer-to-contract), e o contrato trava o peer. É como aquela promessa que
se faz diante dos céus e dos olhos de deus. Numa rede em blockchain, deus não é testemunha mas a sociedade
inteira o é, e avalizará seu contrato (por “sorteio”, algum outro membro da sociedade é remunerado para tanto)
de forma a garantir que suas premissas foram depositadas em juízo. Tudo isso de forma automática e indolor.
Passa-se assim da milenar situação de “não devo trapacear” para a de “não consigo trapacear”, eliminando a
necessidade do fator confiança, que somente se garante com arcabouços institucionais, legais ou burocráticos.
Eliminando-se os custos, leia-se. É verdade que soluções específicas para casos específicos sempre foram criadas
nesse sentido, e a indústria de meios de pagamento é um ótimo exemplo disso.
No Brasil, o PIX desmonta um dos pilares básicos do paper de Satoshi, o custo da transação financeira. Mas os
intermediadores (bancos) continuam existindo, apenas concordam em prestar o serviço gratuitamente, em troca
de acesso ao dinheiro dos (antes) desbancarizados. Poderão os bancos oferecer todos os seus serviços de forma
gratuita e permanente? É o que custará para competir com protocolos.
Obviamente, a demanda atual das sociedades pelos serviços da Web 3 (chegaremos nisso) é a exata mesma dos
contemporâneos de Edison, Tesla e Westinghouse por televisores domésticos: zero. Entretanto, o mercado de
cérebros empenhados no assunto está quente: com prêmios altíssimos e sem barreiras à entrada, é literalmente
uma mobilização mundial sem precedentes, nem mesmo no início da internet.
Se por um lado é impossível prever o futuro do Ethereum, por outro parece seguro defini-lo como no mínimo o
avião dos irmãos Wright (ou de Santos Dumont), ainda que estejamos longe da Boeing. Nesse sentido, o
desenvolvimento especulativo do “mercado cripto” estaria hoje na fase dos circos voadores, aquela que antecedeu
a aviação comercial desenvolvendo tecnologia e educando o público, através de circos supérfluos.

The Network Economy: um pleonasmo
Durante toda a história, assistimos novas tecnologias criarem novas empresas que assassinaram grandes empresas
antigas, agora obsoletas. Embora chocante, não seria exagero dizer que isso aconteceu com mais frequência nos
últimos oitenta anos do que nos oitocentos anteriores. Dois comentários derivam-se:
Primeiro, parece lógico e natural que, em algum momento, uma nova tecnologia nos empurraria a assassinar a
engenharia básica do próprio Estado, não no sentido da República em si mas no de desmaterialização de sua
máquina pública. Lembre-se, blockchains são literalmente máquinas públicas em software. Balaji Srinivasan
escreveu um livro a respeito, The Network State: How to Start a New Country. Desafio aqui o leitor a apontar
outro ensaio literário totalmente novo na ciência política, escrito nos últimos duzentos e cinquenta anos. Não há,
tanto quanto Radical Markets (Weyl/Posner) é a única proposição totalmente inovadora às ciências econômicas.
Todo o resto trata apenas de evoluções marginais, disrupções pontuais ou, mais frequentemente, mais latim em

cima do que já se havia escrito. Em suma, instituições milenares não são imunes à novas conveniências práticas.
Até o matrimônio flutuou seu conceito, ao longo dos séculos.
Segundo, pense no que é de fato uma empresa. Segundo Simon Sinek, uma empresa é o resultado de um grupo de
pessoas que acredita e busca algo em comum. Segundo as faculdades de economia (crédito a Ronald Coase), por
sua vez, uma empresa é somente uma maneira de se eliminar custos de transação entre pessoas que (juntas)
produzem algo. São as duas melhores definições que conheço. Ocorre que cripto pode atender as duas de forma
muito melhor do que uma empresa. Seus filhos trabalharão para protocolos soberanos, eventualmente, mesmo
que dividam o teto com um time real onde funções sejam definidas.
Como dito antes, blockchain é um computador coletivo em nuvem do qual o público usuário é dono ao invés de
cliente, detendo assim poder real de controle automático sobre programação e verificação (gratuita, e isto é
importante) de qualquer evento (transação) econômico ou civil, público ou privado, sigiloso ou não, numa
sociedade digital.
Por evento ou transação, entenda-se aí portanto potencialmente tudo que envolva o exercício de algum tipo de
identidade (credencial, diploma, etc), governança (voz/voto) ou valor (dinheiro/riqueza), isto é, todas as cláusulas
que poucos leram de um contrato que assinamos ao nascer, o Contrato Social. Objetivamente, blockchain é a
primeira tecnologia que nos permite verificar, transmitir e executar estas três coisas grifadas acima (identidade,
governança e valor) em redes públicas automáticas, como se elas fossem somente símbolos computacionais (token
quer dizer símbolo, não necessariamente dinheiro ou equity). E sempre foram somente isso, desde que desistimos
do mundo Hobbesiano.

Por outro ângulo, a Web3
Um computador coletivo em nuvem do qual o público usuário é o dono – ao invés de cliente – gera outra
consequência fundamental. O poder de barganha na economia digital, movida pelo comércio de metadados, se
inverte.
Navegar na web é gratuito tanto quanto assistir televisão aberta era gratuito para nossos pais. O produto que o
Google vende é fundamentalmente o mesmo que a TV Globo já vendia há meio século: nossa atenção. Hoje,
milhares de empresas pagam dezenas de bilhões de dólares, anualmente, por nossos metadados. Mas pagam às
FANGs, não a nós mesmos. Até alguns anos atrás, a maioria dos usuários da internet não entendia seu economics,
se tanto nela é de graça. Isso porque é intuitivo se imaginar como o agente, mas não como o produto.
A economia de metadados é o proxy perfeito do feudalismo: sem alternativas, o camponês (usuário) pisa “por
vontade própria” num terreno novo, que lhe garante ganha-pão e benesses que, do contrário (?), no mundo
offline, jamais teria. Os terrenos são de livre acesso mas são privados. Em troca do direito ao uso-capião, o usuário
cede ao dono da terra a própria soberania individual, literalmente.
Dessa forma, se alguém quiser convencê-lo a votar no Bolsonaro ou perguntar sua propensão a assinar um serviço,
trata-se com o dono da plataforma, no atacado. Este, por sua vez, vive de vender a informação ou direcionar o
comportamento. A saída do usuário também é livre, mas se dopado o bicho não foge. Google e Facebook são
fisiocracias digitais onde o único meio de ascensão econômica dos usuários é colaborando na cooptação e
manutenção online de outros usuários mais. Meio como o Samuel L. Jackson no filme Django.
Ao menos no caso da web, nunca houve maldade, somente limitação técnica. Nesse sentido, blockchains
equivalem à transição definitiva do feudalismo para o capitalismo no mundo de nossas procrastinações virtuais. O
apelido do novo regime da internet é Web 3.
Cunhado por um dos criadores do Ethereum, Gavin Wood, o termo Web 3 engloba tudo. Na definição dada por
alguém e popularizada por Chris Dixon (a16z), um dos maiores investidores e especialistas no assunto:

“Web 3 é a internet de propriedade do usuário, orquestrada por tokens.”

Significa que quaisquer dados contidos num histórico de cliques pertencem a quem clicou. Quem cria os robôs que
transformam dados nos metadados que alimentam algoritmos; quem compra espaços publicitários; quem cria
serviços de valor que dependem de escala… Nada disso se compromete. Ao contrário, tudo tende a maior
eficiência, num mundo sem os gargalos inevitáveis da Web 2, em que o dono do taxi, da rua, do guarda de trânsito
e dos outros carros são a mesma pessoa.
O exemplo mais simples disso é um browser. É impossível navegar na web sem um browser. Quando você abre seu
browser, digita um endereço e espera carregar, isso demora alguma fração de segundos qualquer (dependendo da
sua conexão), mas 70% dessa fração ínfima de tempo se dá para que se baixe não o conteúdo que você quer ver,
mas sim os robôs e o malware que você não vê, que analisam você.
Como voluntário em pesquisas genéticas, acredito que a lógica que demoniza “usarem meus dados” é deseducada,
retrógrada. Desincentivar ganho alheio inibe inovação. Porém, daí a roubarem meus dados é outra conversa.
(Browsers como o Brave resolvem isso, e o próprio Chrome já tem essa função, que permite o usuário escolher se
quer ser cliente ou quer ser produto.)
Em síntese, a Web 1 seria a internet inicialmente, nos anos 90, com suas precariedades de monetização vis a vis
narrativas genuínas de se democratizar gratuitamente informação, educação, acesso a serviços, etc. Do ponto de
vista do usuário, foi também a internet “read only” (definição de Chris Dixon).
A Web 2 seria a fase que começa mais ou menos em 2002-2005, em que o Google e outros grandes aprenderam a
transformar o usuário em gado, contratando neurocientistas e especialistas comportamentais, e arbitrando a falta
de compreensão de reguladores. Em contrapartida maior, é a fase em que se resolvem as precariedades iniciais e
se gera valor social inédito, trazendo a economia de serviços tradicional para o ambiente online, empoderando
empreendedorismo e deslanchando do e-commerce ao consumo de conteúdo.
Foi a fase “read-write” da internet, ou seja, o usuário tornou-se participativo nas ofertas.
Já a Web 3 que começaria agora e vale-se da ciência nova, promete ser a fase “read-write-own”. Em outras
palavras, o usuário continua participativo mas agora passa a ser senhor de si mesmo, invertendo a barganha sobre
seus próprios dados. Dessa forma, enquanto a eficiência da Web 2 (incentivos econômicos ao capital humano)
seria preservada, o éthos da Web1 (democracia, liberdade, acesso, etc) seria finalmente exercido pela sociedade.
De olho em tais promessas está, por exemplo, a indústria musical. A música, cuja singularidade econômica
mereceria outras dez cartas, encarna de forma precurssora (e recorrente) a dor e delícia de se viver de capital
intelectual num mercado selvagem em frenética transformação tecnológica e cultural. Músicos diriam que “a
internet foi cruel com os artistas”, porém o correto seria dizer que a Web 1 o foi, ignorando propriedade
intelectual, e a Web 2 mais ainda, esvaziando suas barganhas em favor dos donos de algoritmos privados.
A internet orquestrada por tokens seria o triunfo do artista criador, se sua digital lhe garante royalties
automaticamente, independente da manipulação estética ou da complexidade criativa a que sua obra venha a se
submeter por decisões gananciosas de terceiros. Cumpre-se notar, porém, que o exato mesmo princípio vale para
criadores de algoritmos remunerados por ganhos de escala (concentração).
De forma alguma o agente capitalista individual, sob qualquer chapéu é desincentivado. Entretanto, desincentiva-
se a adesão a concentrações verticais de agentes (a firma de Coase), se a mão de obra é capaz de se coordenar de
forma autônoma.

Microeconomia e cidadania de sempre, em tokens digitais
Suponha que uma pessoa tenha um ataque cardíaco ou caia desacordada no meio de um estabelecimento. O
protocolo mais básico da primeira pessoa ao lado é gritar pela presença de um médico. O médico, diz o contrato
social, é o sujeito mais apto a acudir a vítima do mal súbito – ainda que não a conheça pessoalmente-, se pela
ciência conhece como funciona seu corpo, em termos básicos.
Caso chame-se outra pessoa e o evento termine em um tribunal, um juiz cobraria explicações acerca de não terem
chamado um médico.
Caso o médico necessite informações clínicas mais específicas sobre a vítima, o melhor que pode fazer de imediato
é lançar mão em seus bolsos e vasculhar sua carteira e contatos telefônicos.
Agora o mesmo incidente, ocorrendo daqui há oitenta anos, no século 22. O juiz sabe de fato, pelos registros
públicos de GPS em 6G+, se haviam ou não médicos por perto, ainda que os registros não exponham a identidade
dos médicos. Da mesma forma, o médico socorrista consegue acessar todo o prontuário médico da vítima
imediatamente, apenas a partir de seu nome, embora não consiga acessar dados de nenhum outro tipo, e embora
outra pessoa sem credencial médica local não consiga acesso aos mesmos dados. Este é apenas um pequeno
exemplo de como blockchains e smart contracts automatizam tudo que a sociedade já combinou entre si e já
pratica, analógica e ineficientemente. A Web 3 nos induz à digitalização completa dos backoffices das relações
humanas.
O mercado de crédito defi já existente – e que chegou a mais de U$230bi de TVL em 2021 – é ótima expressão
disto. Embora a ideia de crédito super-colateralizado seja tudo menos sofisticada, o ganho de eficiência passa a ser
revolucionário se qualquer coisa passa a servir como colateral, e se tanto empréstimos quanto execuções podem
ser feitos sem intervenção humana e sem sequer conhecimento sobre quem são os agentes. Aquelas cenas do
cinema em que um milionário que perdeu a carteira deixa ao taxista seu relógio, mil vezes mais valioso que o valor
da corrida, perdem totalmente o sentido. Num mundo de swaps perfeitos, mesmo um colateral exótico é valorado
de forma justa, automaticamente. Aliás, num mundo de swaps perfeitos pode-se pagar até impostos com milhas
aéreas, e também o crédito sub-colateralizado ganha eficiência ímpar, se todo o comportamento de vida do
indivíduo pode ser parametrizado em risco. Enquanto as FANGs sabem mais sobre nós do que nós mesmos,
instituições financeiras ou seguradoras sabem muito menos.
No bojo desta digitalização de relações automáticas estão as NFTs, os tokens singulares. Sua utilização para a
designação de bens é óbvia, e nesta fase experimental vive hoje seu circo, senão um circo voador, certamente um
infantil, igualmente necessário. Mas sua utilização para a designação do homo digitalis poderá ser fundamental.
Neste sentido, a discussão teórica sobre “soul tokens” é uma das mais interessantes da atualidade, com teses
diferentes seguindo desenvolvimentos totalmente diferentes. Negligenciar oportunidades acerca de NFTs por
conta de Bored Apes e outras espumas faz tanto sentido quanto desmerecer a internet em 1995 por conta da
criminalidade. O assunto merece respeito.

(Parêntese) A Tesla: entre presente e futuro
Peço licença para exagerar (apenas um pouquinho), mas a Nissan está para a Tesla assim como a Livraria Saraiva
(ou qualquer rede mundial, não conheço o mercado) está para a Amazon. Nos anos 1990, as pessoas achavam que
a briga de Jeff Bezos era com o mercado livreiro, embora ele estivesse apenas executando sua visão maior.
Aconteceu o mesmo com a Tesla, e demorou para que o mercado entendesse não se tratar de uma montadora.
Mais ainda, não se trata sequer de uma car company.
A Tesla é uma big tech do setor de energia, com o objetivo claro de alterar toda a matriz energética mundial
através de reorientação de demanda. Como boa big tech, sua commodity básica são metadados, a partir dos quais

comercializa seus hardwares que em cascata (Tesla vende para Tesla, que vende para Tesla…. que vende para o
consumidor final) reorientam o consumidor final no consumo energético. Na prática, são N empresas diferentes
sob o mesmo chapéu, hackeando o padrão de consumo energético em engenharia reversa.
Uma dessas Teslas, das menos impressionantes e menos faladas, é a Tesla seguradora. Quando o consumidor
compra um carro Tesla, tem a opção do seguro in-house. A diferença é que a Tesla acumula 5 bilhões (and
counting) de milhas dirigidas, literalmente mil vezes mais que qualquer competidor, armazenadas em dados
digeridos por AIs, entre os quais o AI da seguradora, que confronta o seu modo de dirigir em tempo real (sim,
monitoram você) com o database. Se você é um excelente motorista, pagará o menor dos prêmios, mesmo que
você só tenha 21 anos de idade. Em todo o resto da indústria, você pagaria um seguro altíssimo porque não há
como terem certeza de sua prudência, mas há como terem certeza de sua idade (e lembre-se, você é exceção a
moda dela).
Quem precisa de confiança quando se tem os fatos (dados)?
Analogamente, é exatamente isso que permitirá a Web 3 para tudo. Num mundo tokenizado, a Tesla poderia lhe
vender (ou dar) seus dados automaticamente, de forma que terceiros pudessem ter acesso e disputar sua apólice.
Na verdade, o próprio “terceiro” desaparece, diante disso, se com tais dados qualquer planilha (Dapp) calcula e
cobre sua apólice em tempo real, financiado por um pool de poupadores.
Cada uma das partes tem seu próprio p2c, e não poderia se importar menos com a conduta das outras.

Nota sobre o terreno: o metaverso
Há uma grande confusão com o termo metaverso. Trata-se de um apelido para uma sociedade digital subjetiva,
retirado de um livro, tal como a expressão “big brother” saiu de Orwell. Nada mais que um conceito abstrato. É
como o “longo prazo”, segundo economistas, mera referência conceitual que nada tem a ver com um relógio
cronológico.
O metaverso não é necessariamente um lugar novo inspirado no Roblox, ou uma Matrix que concorrerá com o
mundo real, somente acessada com um óculos especial. Essas coisas tendem a se desenvolver, mas são apenas
camadas novas de uma história velha. O termo certamente acena ao Oasis de Ernest Cline (Ready Player One), mas
ao mesmo tempo é bem mais abrangente que isso.
Até porque, no mundo real, convenhamos que a apropriação dos rótulos é livre (na Faria Lima, por exemplo, a
despeito de desespero meu e de outros pescadores caiçaras, diz-se que MGLU3 é uma empresa de tecnologia).
No limite, é como os policiais do Rio que se dirigem até você lhe chamando de campeão. “Habilitação e documento
do veículo, campeão.” Não existe um campeonato que você venceu. Aos olhos de alguém de 1880, a realidade
antiga de 2012 já seria um surreal metaverso.

Visão
Embora o conceito de blockchains seja extremamente simples, uma implementação que proporcione grande
escala, total segurança e descentralização (soberania) suficiente é altamente complexa. Tão complexa que Vitalik
Buterin chamou este problema de Blockchain Trilemma: entre estes três quesitos (escala, descentralização e
segurança) pode-se ficar com dois, mas não com os três. De modo geral, a indústria assumiu o trilema como

verdadeiro, embora não o seja. Silvio Micali, cientista do MIT e vencedor do Prêmio Turing (o Nobel da ciência da
computação) por sua contribuição à criptografia, demonstrou que é falso.
Este é exatamente o problema fundamental do Ethereum. Desenhado por um time pequeno e jogado à rede como
prova de conceito (tal como o avião dos irmãos Wright), sua engenharia básica é consequência de uma abordagem
heurística (suposições intuitivas), pouco ou nada científica (e o ETH 2 segue a mesma linha). A começar por seu
próprio idioma, o solidity, que se por um lado o viabiliza como acessível, por outro induz sua programação ao
modo imperativo, dificultando e muito a verificabilidade formal das coisas depois que houver volume condizente
com a economia mundial e layers demais por trás de cada ação.
É verdade que o “learn as you go” é a fórmula da vida (e The Lean Startup, de Eric Ries, merece seu status de
bíblia), mas ela não funciona bem na construção de infraestrutura em aplicações irreversíveis, a meu ver. Para
estes casos, exige-se um lastro de formalidade científica.
O planeta Terra contém uma população humana que em breve chegará a nove bilhões de individuos, um PIB que
beira os U$100tri e ativos que passam de U$500tri, com qualquer fração relevante disso supostamente prestes a
ser tokenizada. É de se esperar que, se a possibilidade é eliminar a dependência de confiança mútua (e é), façamos
isso da forma mais cientificamente formal e verificável possível. Quando se trata de infraestrutura, o jeito lento é
na verdade o único jeito rápido de se resolver o problema.
Não obstante, em virtude de uma corrida armamentista patrocinada com dinheiro grátis de investidores que
escolhem quem grita mais alto, poucos são os projetos que, desde o início, planejaram-se com isso em mente. Ao
contrário.
Um time de egressos da Qualcomm, por exemplo, usou de sua credencial para cooptar investidores famosos,
puxadores do varejo, e em poucos meses colocou no ar um “Ethereum killer” que tanto chegou a valer U$77bi
(mkt cap) quanto teve povoamento impressionante de Dapps, que nem necessariamente funcionarão e nem
necessariamente terão direito a escala, segurança e descentralização. O resultado é que a rede já mostrou ser
capaz de cair (fora do ar), o que não deveria acontecer. Justiça seja feita, a alta expertise em CDMA – somada a
vantagem de se assistir as sinucas do Ethereum em retrospecto – parece ter lhes economizado tempo ao se
abordar blockchains sem se perder em abstrações e experimentações que talvez já nasçam erradas (e talvez
tenham sim, precedentes análogos).
Discussões análogas são pertinentes a Layer 2’s (side chains, rollups), basicamente redes de apoio de infraestrutura
criadas para se “by-passar” problemas fundamentais da rede abaixo, como por exemplo escalabilidade em TPS
(transactions per second). Basicamente, quase todo o market cap de tokens que chamamos de mercado cripto
(com excessão notória do BTC, que já nasceu pronto e tecnicamente autossuficiente para ser o ouro digital) diz
respeito a apostas em protocolos que tentam resolver toda essa infraestrutura básica de duas ou três camadas, na
qual repousaremos em cima nossas funções de backoffice social mais práticas e objetivas, usando-se Dapps
(aplicativos descentralizados).
Conforme sabe o estudante de ciências humanas, nossas relações interpessoais são a integral de uma penca de
camadas de questões sobrepostas (até para podar a árvore de sua calçada há vários tipos de Direito envolvidos) e,
se vamos digitalizar tudo, não haveria por que ser diferente. Daí certa lentidão para que vejamos aplicações reais,
como denunciam os descrentes. Ora, uma linha ferroviária só tem utilidade após completa, ligando de fato duas
cidades. Não há como a sociedade usar 80% da bitola enquanto aguarda o resto. Nesses casos, a noção de MVPs é
diferente.
Diante de tudo isso, é igualmente intuitivo supor que boa parte desse pessoal atual todo (e desse market cap)
trabalha em soluções que jamais serão usadas. Se o Ethereum tiver o mesmo destino do Mosaic, o primeiro
browser da internet, seus sidechains e rollups são igualmente irrelevantes no longo prazo. Essa é por acaso minha
crença, apostando na repetição de Freud (o Mosaic não é o único exemplo). Métricas muito elementares
socialmente, como a que a computação chama de tolerância bizantina (teoria dos jogos para consensos coletivos),
parecem subestimadas por programadores empreendedores, preocupados somente com viabilidade imediata (gas

fees) e TPS. No fundo, fundamentalmente a mesma postura de comerciantes empreendendo em universos novos
(interesse individual vs coletivo), desde sempre.
A maneira de se otimizar segurança e conveniência de participantes de um pequeno evento piloto não
necessariamente é a mesma para se atender a multidão desejada. Na verdade, acredito que o próprio account
model usado por Ethereum, Solana e outros, embora seja análogo ao sistema financeiro tradicional, não parece o
mais adequado, conceitualmente, para redes descentralizadas. O sistema utxo (o mesmo do BTC) o seria, e versões
mais sofisticadas e eficientes dele já foram testadas em outros blockchains. Resumidamente, account model é
como uma transferência bancária, enquanto utxo seria como uma transação em cash, com a diferença que o
receptor não tem capacidade técnica de não devolver o troco. As implicações da diferença mereceriam capítulo à
parte, além do escopo superficial desta carta.
Soma-se a isso o pouco apreço do empreendedor à formalidade da língua em que tudo é escrito. É bastante óbvio
que excesso de formalidade linguística inviabiliza o dia a dia da vida, mas existe uma boa razão para que sentenças
de tribunais ou acordos diplomáticos não sejam proferidos em português do WhatsApp: a informalidade resulta
em custo bem mais alto que a chatice. Nos idiomas de programação é o mesmo, computação e verificação podem
tornar-se antônimos, e o segundo se garante com o rigor da matemática, que pode ser uma chatice de se
aprender.
Um ótimo contra-argumento a tudo isso, segundo a turma da a16z e outros investidores mais (de credenciais que
nem de longe tenho) estaria no paralelo aos primórdios da Web 1, a própria internet. Seu protocolo mais
elementar, o TCP/IP, seria apenas “good to go”, disse-me um entendido, tendo alternativas mais elegantes a ele
sido apresentadas posteriormente (após sua coroação). Ocorre que o Ethereum está longe de ter sido coroado ou
de ter se provado good to go. Ademais, como acontece com a própria internet em outros aspectos, assim como
acontece com a eletricidade, um mundo multi-formas é não somente possível como provável. Num futuro
próximo, nenhuma dessas questões será debatida entre economistas, e a própria palavra blockchain cairá em
desuso, acredito. Ninguém sabe ou discute como protocolos de energia, telefonia ou internet funcionam. Desde
que funcionem. Sempre será assim.
Parece imperativo, entretanto, que não se confunda isso com a nova educação básica. Se é verdade que seremos
donos da internet, que qualquer pessoa terá seu backoffice e que isso aumentará o uso difundido de A.I. em tudo;
é fundamental alguma alfabetização em coding tanto quanto em matemática ou língua portuguesa; de modo que
a pessoa ou se mantenha acima da mediana de renda da tribo que habita ou seja capaz de habitar (agregando
algo) as tribos mais desenvolvidas. Hoje, a proficiência típica em programação da sociedade civil (mesmo nos
nichos mais escolarizados ou produtivos) equivale ao “inglês de cliente” do turista brasileiro em Nova Iorque.
Entretanto, quem só consegue ser o cliente acaba virando só o produto, e de valor decrescente, conforme a Web 2
(que sabe por nós o coding) ensinou.
A não ser que sejamos todos artistas.

Estratégia
Em dezembro de 2016, após ler pela primeira vez sobre o Ethereum e ao mesmo tempo descobrir que havia
perdido para sempre os BTCs que havia comprado anos antes (em um notebook roubado na ilha de Kauai, em
2015) entrei de cabeça no assunto. A leitura de white papers passou a ser quase um full time job, e assim segue
firme até hoje – salvo um período de 15 meses entre 2018-19 (crypto bear market) em que embarquei numa
startup de grafeno; e salvo a agenda de surfista.
Basicamente, a estratégia de alocação sempre foi tentar evitar erros do tipo 1 (falso positivo) e tentar abstrair de
erros do tipo 2 (falso negativo). Por mais rasa que seja tal síntase, o mercado mesmo assim a provou como
overthinking: no geral, as correlações entre avanços reais dos ecossistemas e os preços de seus tokens se mostrou

desprezível. Se por um lado a pseudo expertise não valeu tanto (e só percebi isso a posteri, listando os erros do
tipo 2), por outro nem assim há motivos para lamentações.
No momento atual, o maior vetor de incertezas parece ser o mesmo que sempre foi, a externalidade da liquidez
monetária. Abstenho-me, entretanto, de tentar contribuir com a perspectiva do leitor sobre os próximos passos do
FED.
No debate endógeno desta nova tecnologia e onda, uma abordagem agnóstica em relação a guerra dos Layer 1’s
tem sido minha estratégia, não tanto no sentido de carregar uma cesta de tais concorrentes (tenho esta cesta, mas
não chega a 10% da carteira) mas no de investir em projetos mais bem posicionados para tomar de assalto
quaisquer ecossistemas. Se os pormenores do underlying tech são imperceptíveis e indiferentes aos usuários, por
que haveria de existir um Dapp campeão em um blockchain mas não em outro? Seria como preferir o Nubank se o
telefone for da Claro, mas preferir o C6 se o telefone for da Vivo. Não me parece fazer sentido.
Muito na precificação do mercado cripto não parece fazer sentido. Há projetos que geram receita real, distribuída
aos hodlers, mas tanto seus múltiplos anulam tal objetividade quanto seus desenhos passam perto demais do que
qualquer regulador chamaria de securities não reguladas. Há uma grande maioria cujos tokens não tem de fato
qualquer valor intrínseco (mesmo em caso eventual de sucesso estrondoso de suas propostas), e há aqueles que
tem, são condizentes com parâmetros regulatórios (tipicamente apresentando-se à lei como vouchers de crédito
em seus produtos, sem representar qualquer direito), demonstram amadurecimento mais razoável e apanham nos
preços relativos.
Investidores que nos últimos dois anos se valeram da combinação de algoritmos de análise de sentimentos
(tendências de consumo, as mesmas ferramentas das campanhas políticas modernas e do e-commerce) e análise
gráfica (no ano passado, o BTC replicou de forma praticamente perfeita a imagem de apostila de um Wyckoff
Distribution) provavelmente estão agora muito melhores que os hodlers (buy and hold), embora o zoom mais
aberto desencoraje tal aventura.
Enquanto a adoção em massa demorar, e há razões para demorar, parece difícil imaginar mudança nesta dinâmica.
É provável que o mercado chegue a U$10 tri no próximo bull run a valer, repetindo exatamente tal padrão.

Conclusão
Abaixo, algumas perguntas legitimamente feitas pelas sociedades, em diferentes momentos:

  • (1870) Por que as lâmpadas deveriam ser prioridade para a sociedade, se temos lampiões?
  • (1970) Por que alguém preferiria suas fotografias na tela de um computador ao invés de em um ótimo papel?
  • (1990) Por que alguém compraria uma camisa ou enviaria dados de cartão de crédito pela internet?
  • (2015) Por que alguém precisaria custodiar sua própria caixa de e-mails ou ser seu próprio banco?
  • (2030 prev) Por que apostar em governanças sem governantes ou em Estado sem máquina pública?

Todas estas perguntas expressam o mesmo sentimento inicial do establishment educado diante de novas
disrupções tecnológicas, pecando pelo mesmo equívoco de se confundir restrições tecnológicas com preferência
revelada (Samuelson).
De certo, todas elas teriam a mesma resposta: “Porque acabamos (enquanto inteligência coletiva) de demonstrar
que passou a ser algo possível, escalável e provavelmente eficiente; que se você reparar bem replica nossos

hábitos mais conservadores e recorrentes; além da razão principal: a oferta de opcionalidades inimagináveis
hoje, por definição. Portanto é desejável.”
Ainda assim, é perfeitamente possível que ideias como o TiVo sempre possam apresentar suas versões de tal
resposta, à época em que são criadas. Como bem sabemos, somente porque a tecnologia permite que as pessoas
façam algo, não significa que farão. Exemplos são infinitos, e aqui desnecessários.
A verdade é que não sabemos. Não há como saber.
Entretanto, se investir é palpitar, aqui vai um palpite: quando a inovação relativa à resposta acima performa sua
mágica via adição de feature (processo ou hardware, especialmente), ainda que em substituição a um hardware
antigo, a aposta é uma verdadeira loteria. Isso porque é necessário que a plateia (demanda) performe (façam algo
proativamente), mas é preciso conquistá-la antes. Quando, por outro lado, a mágica é feita via subtração de
features (seja hardware, seja processo) na vida do consumidor, a coisa adquire um caráter de inevitabilidade,
especialmente em casos de rede e infraestrutura, onde basta que alguns rebeldes iniciem a transição. Ainda que
seja mau negócio construir um túnel que economiza tempo, moradores indiferentes e contrários à obra o usarão,
quando pronto.
Em outras palavras, há aquilo que a humanidade aprende a fazer (e não necessariamente fará), e há aquilo que a
humanidade aprende a nunca mais precisar fazer (porém, mesmo assim colher no mínimo os mesmo benefícios).
O segundo caso é uma aposta segura, a meu ver.
O processo de digitalização social parece estacionar em platôs quando sua evolução necessita de proatividade e
voluntarismo do usuário (ainda que isto signifique somente fazer um cadastro ou baixar um aplicativo do governo).
A tokenização econômica, por outro lado, pressupõe proatividade somente de seus operários, os programadores.
E esses o fazem graças a incentivos irresistíveis. Os usuários, ao contrário, fazem menos, tem seu volume de
esforço (e despesas) drasticamente subtraído, se o processo mantem suas titularidades mas substitui suas ações
pelas ações de softwares soberanos e contratos automáticos.
Analogamente, esta tokenização é a adição constante de mais camadas digitais automáticas nas interseções entre
as pessoas, mais sofisticação e possibilidades de relacionamento econômico. A tecnologia dos blockchains foi (sim,
verbo no passado) uma camada que se revelou, na modelagem teórica do laboratório (ciência), capaz de promover
e suportar N outras camadas, exponencialmente, processo que em passados análogos gerou resultados então
inimagináveis.
Ganhou tração de 2020 para cá, com o advento de plataformas Defi, o discurso de que “cripto” é o novo Wall
Street. Em meu entendimento, porém, cripto é o novo “tudo”: o novo Wall Street, a nova Hollywood, a nova
Universidade e até a nova Brasília ou Washington. Isso porque a exata mesma função social de cada um destes
entes tende a ser auferida de forma mais eficiente usando-se protocolos computacionais ao invés de protocolos
analógicos, isto é, orquestrando-se a nós mesmos por tokens.
Caso o amigo leitor conheça algo mais interessante do que a tentativa de tradução uma a uma de nossos velhos
conceitos teóricos em códigos soberanos (o quão didático sobre ciências sociais é tal exercício?), e que seja mais
financeiramente lucrativo do que 167% CAGR de dez anos com o Sharpe dos últimos 5 em 1.81 (contra 1.01 do
S&P 500), por favor me escreva de volta. Estes números aliás não são os meus, mas sim os do BTC, o qual para
confirmar a tese do ouro digital precisará se valorizar mais 20x do valor atual. E isso excluindo-se completamente o
fim do ciclo do dólar americano como reserva de valor global (sim, essas coisas acontecem).

Bruno Pesca é CCO (Chief Crypto Officer) em sua casa de praia, reportando-se diretamente à sua esposa.

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